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A Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi) até agora soltou uma nota pífia em defesa da manutenção da estatal Ceitec no mercado brasileiro. E foi a única manifestação pública sobre o assunto. Entretanto, nos bastidores do MCTI já existem comentários de que empresas associadas à ela estariam prospectando a compra da estatal para implantar um projeto voltado para o 5G no Brasil.

Por que extinguir a Ceitec e vender sua fábrica? Oras, porque os interesses privados num governo liberal, que não mede as consequências sobre o futuro do país, não quer uma empresa pública conflitando com esses mesmos empresários.

Isso é um discurso sindical? 

OK, então vamos para o discurso econômico. Mas de antemão peço desculpas aos engenheiros e especialistas desta área pelos meus parcos conhecimentos de semicondutores. 

*Porém, de malandragem eu entendo bem, e já vi várias ocorrerem no Brasil. Esta aqui é só mais uma em curso.

O Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, que está sendo descartada pelo governo, seria hoje no Brasil e em boa parte do mundo, umas das poucas plantas montadas que, com uma pequena readaptação em equipamentos, poderá substituir o silício pelo nitreto de gálio na fabricação de chips para os dispositivos da quinta geração da telefonia móvel – o 5G. 

O tamanho das lâminas dos “wafers” que são produzidos para essa tecnologia móvel têm de ficar no máximo dentro da faixa de 100 e 200 milímetros. Ou seja, qualquer indústria instalada no Brasil, seja nacional ou multinacional, gastaria muito menos para readaptar a fábrica da Ceitec a esse padrão de produção dos chips 5G, do que criar uma nova planta no Brasil. 

A Ceitec é capaz de produzir esses chips com um tamanho de 600 nanômetros o que estaria dentro da margem destinada ao 5G, que gira entre 100 e 2 mil nanômetros.

Aí é que vem a malandragem

O Ministério da Economia, com o silêncio obsequioso do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações – que lavou às mãos para a extinção da estatal e nunca foi à público defender sua permanência – estará em breve dando a fábrica a preço de banana para algum espertalhão. Que sabe que a planta ganhou uma posição estratégica mundial, quando se descobriu que o nitreto de gálio substitui com eficiência muito maior o silício na fabricação de componentes 5G.

E digo que sairá baratíssimo para esse espertalhão privado comprar, porque de acordo com um estudo da consultoria francesa Yole Développement, o mercado de chips com nitreto de gálio deverá superar receitas da ordem de US$ 2,5 bilhões até 2025, ou quase R$ 13 bilhões. Ou seja, é comprar, readaptar e rapidamente iniciar a produção, pois o 5G até o ano que vem explodirá no mercado móvel brasileiro.

Resta saber, então, quem será o espertalhão que anda circulando pelo MCTI se mostrando disposto a assumir esse sacrifício “do custo de comprar do governo uma fábrica ineficiente”. Quem pode responder isso é a Abisemi, porque consta que o interessado está dentro dos seus quadros, inclusive em posição estratégica diante do MCTI. 

*Com a palavra o presidente da Abisemi, Rogerio Nunes, que também é presidente da Smart Modular Technologies no Brasil.

Fonte: Capital Digital