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Cactos na região de Canudos (BA) – Raul Spinassé – Folhapress

O resistente cacto, que aprecia calor e aridez e é adaptado a terrenos rudes, pode não parecer uma possível vítima da mudança climática. No entanto, mesmo esses sobreviventes espinhosos podem estar perto de atingir seus limites conforme o planeta ficar mais quente e seco nas próximas décadas, de acordo com pesquisa publicada na quinta-feira (14). O estudo avalia que, em meados do século, o aquecimento global poderá colocar 60% das espécies de cactos em maior risco de extinção.

Essa previsão não leva em conta a extração ilegal, a destruição do habitat e outras ameaças causadas pelo homem que já fazem dos cactos um dos grupos de organismos mais ameaçados do mundo.

A maioria das espécies de cactos “está de alguma forma adaptada aos climas e ambientes em que vivem”, disse Michiel Pillet, estudante de doutorado em ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Arizona, que liderou o novo estudo, publicado na revista Nature Plants. “Até mesmo uma pequena mudança pode ser demais para eles se adaptarem em escalas de tempo mais curtas.”

Para aqueles que pensam nos cactos como mestres da resistência a todos os climas ou como plantas domésticas interessantes e de fácil manutenção, a enorme variedade dentro da família dos cactos pode ser um choque.

Para começar, nem todos os cactos habitam o deserto. Alguns vivem em florestas tropicais ou em climas frios, em grandes altitudes. Alguns armazenam pouca água em seus caules, contando com água da chuva e orvalho. Alguns ocupam ambientes altamente específicos: falésias calcárias no México, colinas de granito rosa no Brasil, uma mancha arenosa de 1,5 km quadrado no Peru. Na Amazônia, o cacto flor-da-lua gira em torno de um tronco de árvore, bem acima do solo, de modo que fica acima da linha da água quando a floresta inunda e a água pode dispersar suas sementes.

Em parte, é esse gosto definido por ambientes específicos que torna certos cactos vulneráveis não apenas às mudanças climáticas, mas também a ameaças de todos os tipos.

“Se ele for encontrado só numa área muito pequena, e alguém vier e lavrar para plantar qualquer coisa, toda a população desaparecerá”, disse Barbara Goettsch, outra autora do novo estudo e presidente do Grupo de Especialistas em Plantas Suculentas e Cactos da União Internacional para a Conservação da Natureza.

O estudo analisa 408 espécies de cactos, ou cerca de um quarto de todas as espécies de cactos conhecidas, e como seu alcance geográfico pode mudar de três maneiras diferentes pelo aquecimento global neste século. Para surpresa dos pesquisadores, seus resultados não variaram muito entre os diferentes caminhos para as mudanças climáticas, disse Pillet: mesmo que o planeta aqueça apenas modestamente, muitos tipos de cactos poderão sofrer declínios na quantidade de território onde o clima é hospitaleiro para eles.

Em geral, espera-se que 60% das espécies de cactos sofram declínios de qualquer magnitude, segundo o estudo, e 14% podem sofrer declínios acentuados. Apenas uma espécie, o xique-xique, no Brasil, tende a apresentar um alcance substancialmente maior.

De acordo com o estudo, os lugares onde o maior número de espécies podem se tornar ameaçadas são geralmente aqueles com a maior diversidade de espécies hoje, incluindo Flórida, centro do México e grandes áreas do Brasil. Cactos que vivem em árvores parecem se sair especialmente mal, talvez porque suas vidas estejam tão entrelaçadas com as de outras plantas.

As perspectivas não parecem tão sombrias para o sudoeste americano, lar do icônico saguaro, disse Pillet. Mas os cientistas ainda não sabem o suficiente sobre certos cactos mais raros para prever como eles poderão reagir a climas mais severos, disse ele. Isso significa que as projeções do estudo talvez não pintem uma imagem completa para algumas partes do mundo.

Fazendo de cactos em Pocinhos (PB) – Ueslei Marcelino – 8.fev.2017/Reuters

Os cactos, por natureza, não revelam seus segredos facilmente. Os cientistas que examinam a sensibilidade de outras plantas às mudanças ambientais podem observar, por exemplo, o tamanho e a espessura de suas folhas. “A maioria dos cactos não tem folhas, então o que você iria medir?”, disse Pillet.

As previsões do estudo também não levam em conta eventos extremos, como secas e incêndios florestais, disse Pillet. No deserto de Sonora (sudoeste dos EUA e México), as rápidas infestações de “buffelgrass”, um capim resistente à seca nativo da África, Ásia e Oriente Médio, tornaram a paisagem altamente inflamável. Os incêndios florestais mataram milhares de saguaros nos últimos anos.

“É uma imagem popular de cactos”, disse David Williams, professor de botânica na Universidade de Wyoming, que não participou da nova pesquisa. “Ah, não precisamos nos preocupar com os cactos. Vejam, eles têm espinhos, crescem neste ambiente terrível.” Mas os cactos, como a maioria das plantas, existem em delicado equilíbrio com os ecossistemas ao seu redor, disse ele. “Há muitos desses pontos de inflexão, limites e interações que são muito frágeis e reagentes a mudanças no meio ambiente, uso da terra e mudanças climáticas.”

O novo estudo é “fundamental”, disse Williams, por mostrar quão amplamente essas mudanças podem afetar as comunidades de cactos.

Fonte: Folha de S. Paulo