Patrimônio intelectual será entregue a países desenvolvidos.

Foto: Evaristo Sá/AFP

Governo federal publicou no Diário Oficial da União do dia 16 de dezembro a extinção da Ceitec, única empresa de semicondutores da América Latina. O desenvolvimento de uma indústria de semicondutores em qualquer parte do mundo envolve três investimentos essenciais: alto aporte financeiro para construção de uma fábrica e compra de equipamentos de custo elevado; investimentos em políticas públicas para desenvolver a indústria e, principalmente, capacitação de recursos humanos qualificados em áreas específicas e que exigem os mais altos níveis de especializações como, por exemplo: física de semicondutores, química de alta pureza, mecânica de precisão, projeto e produção de circuitos integrados e desenvolvimento de produto e aplicações baseadas em semicondutores, são apenas algumas delas.

A empresa federal de semicondutores, criada em 2009 e localizada em Porto Alegre/RS e que, na última década, constituiu um capital intelectual singular para o Brasil. Possui um quadro de concursados formado de seis (6) pós-doutores, sete (7) doutores, 40 mestres, 46 pós-graduados, 48 graduados e 25 técnicos, totalizando 172 concursados, ou seja, apenas nesta instituição pública estão investidos, atualmente, mais de R$30 milhões e quase 1.000 (mil) anos de formação de RH altamente qualificado para produzir tecnologia nacional e tornar o país independente de importações em diversas áreas estratégicas para o desenvolvimento da nação. A estes números somam-se R$13,5 milhões e mais 431 anos de formação em quadro de pessoal já evadidos da empresa.

Todos estes profissionais tiveram, em sua grande maioria, suas formações e especializações financiadas pelo Estado, ou seja, altos investimentos em educação e muitos anos de treinamento e qualificação para desenvolver profissionais de excelência e fazer girar a roda da economia  no Brasil. Para se chegar a esta cifra milionária e tempo de desenvolvimento de RH tão significativo, foram considerados o nível de formação, o investimento e os anos de formação para cada nível.

Foto: Divulgação

A Ceitec desenvolve e produz três tipos de produtos: chips – etiquetas eletrônicas – sensores. São cerca de ​50 produtos distintos que atendem as áreas de logística, veicular, segurança, saúde e agronegócio. Os nossos produtos utilizam tecnologias de identificação via radiofrequência (RFID) e de segurança como criptografia entre outras. Para proteger os circuitos e a tecnologia desenvolvida pela Ceitec já foram depositadas 44 patentes no Brasil, 3 nos Estados Unidos e uma na Europa.

Logística

Os cartuchos de tinta das impressoras HP e Epson, Canon (entre outros) possuem um chip da Ceitec que permite o acompanhamento logístico e inventário, além de dificultar a falsificação.

Em parceria com a Wirklich do Tecnopark da Feevale desenvolvemos quatro modelos de etiquetas eletrônicas para a Vale gerenciar ativos ferroviários – locomotivas, dormentes, trilhos e vagões – Estas etiquetas suportam condições intensas de uso e são a prova d’água e sujeira.

Em parceria com a Pirelli desenvolvemos uma etiqueta eletrônica para ser embutida no pneu durante o processo de fabricação. Esta etiqueta tem que suportar condições extremas de temperatura e pressão. Ainda depositamos uma patente em conjunto com a Pirelli sobre o que protege esta solução.

A Ceitec desenvolveu tags para várias outras aplicações, como: correios, indústria calçadista, patrimônio, bibliotecas etc.

Veicular

O Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav) é uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) de 2015 que institui a utilização de um sistema de identificação veicular que era para ser utilizado em todo território nacional mas acabou não sendo implementado. A Ceitec implementou esta solução em 2014 e tem 2 milhões de unidades em suas prateleiras.

As etiquetas eletrônicas da ​ConectCar​, uma das maiores operadoras de pedágios do país, contam com o chip desenvolvido pela Ceitec, podendo ser usado para pagamento de pedágios no sistema da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) e em rodovias federais.

Segurança

Em parceria com a Casa da Moeda e Polícia Federal desenvolvemos e certificamos a solução (hardware + software) para o passaporte eletrônico. Projeto iniciado em 2012, cuja certificação internacional foi obtida no início de 2017. Foram investidos cerca de R$ 30 milhões no desenvolvimento e atualmente temos um dano emergente de R$ 15 milhões ao ano desde 2017 pois a casa da Moeda não efetiva a compra de chips da Ceitec.

O mesmo módulo pode ser usado como documento de identificação pessoal eletrônico, assim como a carteira de identidade – como na Alemanha já se utiliza. As competências adquiridas pela Ceitec com o projeto do passaporte eletrônico, incluindo criptografia, segurança de hardware e de software e tecnologia de ​smart cards ​possibilitam aplicações desde a ​área de Defesa (segurança cibernética, controle de acesso), meios de pagamento, assinatura digital até o ​transporte público (tarifação eletrônica)​.

Rastreio animal

Sim possuímos o chip do boi que corresponde a menos de 1% do faturamento da Ceitec. Lançaremos uma nova versão com funções avançadas de comunicação e segurança. Desenvolvimentos futuros: inclusão de outros padrões de comunicação, para adequar a novos mercados no exterior.

Sensores para área da saúde – Protótipos em fase de validação

Desenvolvemos uma ​plataforma para testes moleculares em um chip​. Este trabalho consolidará o Brasil no cenário mundial de dispositivos conhecidos como lab-on-chip – um laboratório de análise clínica dentro de um chip, para diagnósticos onde se pode realizar o diagnóstico na farmácia ou no médico sem ter que ir a um hospital (POC – Point Of Care). Este projeto é uma parceria com o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer Renato (CTI), Fiocruz Paraná e o Instituto de Biologia Molecular do Paraná.

Nessa área está em desenvolvimento um ​protótipo que permite a realização de medidas de PCR em um chip 100% nacional, fabricado totalmente dentro da sala limpa da empresa. A Ceitec já recebeu os kits de teste do COVID do Instituto de Biologia Molecular do Paraná e está trabalhando na validação destes protótipos. Após esta etapa e com as readequações de alguns equipamentos, poderão ser fabricados de 5 a 50 mil sensores/dia para detecção da doença. Este é um dos projetos com tecnologia nacional, fabricados localmente e que serão oferecidos ao mercado com preços competitivos.

Outro projeto em andamento na empresa é um ​sensor de miRNA​, um teste rápido que está sendo desenvolvido como uma opção rápida e barata para a ​detecção de doenças como o câncer, com a possibilidade de sua descoberta nos estágios iniciais, antes do aparecimento dos sintomas ou do tumor propriamente dito. Este projeto foi iniciado em 2016 em uma parceria com a UFSC e possui inclusive uma patente submetida.

Ainda na área de sensores, se encontra em fase final de execução o desenvolvimento de uma plataforma (hardware e software) para ​sensores eletroquímicos​. Tal sistema é composto por um cartão onde o chip com o sensor é conectado e toda a parte de alimentação energética e a coleta de dados pode ser feita por um notebook ou até mesmo por um aplicativo instalado no celular do usuário. Este sistema possui uma grande flexibilidade e possui o intuito de demonstrar a capacidade da Ceitec em fomentar e ajudar no desenvolvimento da cadeia de sensores no Brasil.

Sensores para agronegócio – Protótipos em fase de análise de mercado

Contatos e participação de eventos cm Embrapa desde 2019 Sensores eletroquímicos –

gestão de solo e das plantas – sensores de umidade e nutrientes (sensores) rastreabilidade/controle de material perecível como vacinas, medicamentos, carnes (chip +sensor) gestão de ativos para controle de estoque e remanejamento dinâmico (chip)
monitoramento de saúde e bem-estar animal (sensores)

Planta fabril – possibilidades futuras

Entre outras iniciativas em execução na empresa está a abertura da planta fabril para a produção de produtos desenvolvidos por outras empresas, startups e centros de pesquisa do Brasil.

A estrutura e as instalações fabris são de última geração. Junto com uma equipe de engenheiros altamente qualificados, está pronta para novas tecnologias como GaN / SiC para 5G e dispositivos de alta potência.

Sondas neurais​, nos Estados Unidos a FDA [Food and Drug Administration, agência responsável pelo controle de medicamentos e alimentos] já aprovou instrumentos que registram a atividade cerebral e enviam impulsos elétricos para controlar crises epiléticas ou sintomas relacionados à doença de Parkinson

Dispositivos microfluídicos, ​redução do volume de reagentes e amostras, baixo custo de fabricação e análise em tempo reduzido

Na avaliação da Acceitec, a extinção do Ceitec “será onerosa para os cofres públicos”. “Apenas para o descomissionamento da fábrica estima-se um gasto de cerca de R$ 300 milhões, assim, entende-se como uma alternativa mais vantajosa realizar uma parceria público privada em 2024 quando a empresa for lucrativa”, defendeu a entidade. Ela acrescentou que, com a extinção da empresa se perderá décadas de pesquisas e investimentos públicos de, aproximadamente, R$ 1 bilhão. 

Veja abaixo a íntegra da nota da Acceitec:
A ACCEITEC – Associação dos colaboradores da CEITEC repudia a forma atropelada e afrontosa com que o Governo Federal encaminhou o Decreto 10578/20 que determina a desestatização da CEITEC. A decisão de extinguir a CEITEC, um projeto de Estado criado por lei ocorre a dois dias do STF julgar a ADI 6241 que normatiza a privatização de estatais. Além disso, os estudos que subsidiaram a elaboração do decreto são falhos, não estão assinados por nenhum técnico que se responsabilize legalmente pelas informações nele contidas e não tem o aval do TCU, que, em sua análise, aponta diversas irregularidades no processo. A extinção da CEITEC põe em xeque a autoridade dos Poderes que não foi respeitada.
A ACCEITEC se mantém firme na luta pela defesa da empresa. Muito já foi feito até agora buscando levar a verdade dos fatos para toda a sociedade, seja através da imprensa, seja através do apoio de parlamentares a fim de mostrar as irregularidades cometidas pelo Ministério da Economia na condução do processo de extinção de um valoroso patrimônio nacional. Dissolver a CEITEC é retirar o Brasil de um seleto grupo de países que produzem semicondutores, é limitar importantes políticas públicas nacionais e findar com a possibilidade do país se tornar autossuficiente em tecnologia.
Vamos continuar em busca de apoios para unir o país contra a decisão autoritária de extinguir a CEITEC. Não iremos aceitar uma decisão que vai contra o desenvolvimento e contempla, de forma ignorante, o retrocesso de uma nação.