Estudo do Instituto Trata Brasil considera universalização do abastecimento, aumento da população e crescimento econômico.

Cerca de 35 milhões de brasileiros continuam sem ter acesso a água tratada – Foto de Custódio Coimbra

Alcançar, até 2030, o acesso universal e equitativo à água potável, de forma segura e acessível para todos. Isso é o que prevê uma das 169 metas que fazem parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), documento aprovado em setembro de 2015, em Nova York, por 193 países membros da ONU, entre eles o Brasil. Nesse mesmo encontro, as lideranças políticas mundiais reconheceram que a erradicação da pobreza, em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema, seria o maior desafio global e um requisito indispensável para chegarmos a algo parecido com um desenvolvimento sustentável. Neste Dia Mundial da Água, passados cinco anos desde a assinatura do documento, que o Secretário Geral da ONU, António Guterres, chama de “nossa Declaração Global de Interdependência”, tanto a erradicação da pobreza quanto a universalização do abastecimento de água seguem parecendo sonhos utópicos. Especialmente quando lembramos que estamos no meio de uma pandemia e que faltam menos de nove anos para chegarmos a 2030.

Dados nas Nações Unidas indicam que, hoje, em pleno século XXI, mais de 2 bilhões de pessoas em todo o planeta ainda não têm acesso a água potável e mais de 4 bilhões não alcançaram o direito básico ao saneamento. No Brasil são 35 milhões de pessoas sem abastecimento de água e 100 milhões sem coleta de esgotos. Um estudo feito pelo Instituto Trata Brasil e pela Ex Ante Consultoria,divulgado no final do ano passado, calculou o tamanho do desafio para garantir que cada brasileiro tenha água potável na sua torneira. Não em 2030, como sugere a ONU, mas em 2040. Eles levaram em conta quatro variáveis: a universalização do abastecimento, o aumento da população, o crescimento econômico e as mudanças climáticas. O resultado é assustador. O país precisaria de 4,337 bilhões de metros cúbicos de água a mais do que conseguiu entregar em 2017, o equivalente a soma de todo o consumo dos estados de São Paulo e Minas Gerais no mesmo ano. Ou a adição de 4,4 Sistemas Cantareira cheios, o maior de São Paulo, com 982 milhões de m³ cada um.

Ribeirinhos da comunidade de Anumã, no Tapajós, carregam caixa d'agua comunitária (Foto Chico Ferreira/Divulgação)
Ribeirinhos da comunidade de Anumã, no Tapajós, carregam caixa d’agua comunitária (Foto Chico Ferreira/Divulgação).Março/2017

O drama do desperdício

Toda essa água representaria um aumento da demanda da ordem de 43,5% em 23 anos (de 2017, último dado oficial disponível, até 2040). Mas tudo pode ser pior. Os técnicos do Trata Brasil e da Ex Ante Consultoria, resolveram incluir na conta o desperdício histórico do país. Difícil de acreditar, mas o Brasil perde, todos os anos, quase 40% da sua água potável por ineficiências na distribuição, que vão desde vazamentos, roubos e fraudes, até erros de medição, que representam um prejuízo da ordem de R$ 12 bilhões/ano. Assim, além dos 4,337 bilhões de m³ adicionais necessários para atender a demanda nacional em 2040, teríamos que somar 2,693 bilhões de m³ de desperdícios. O que nos levaria a um acréscimo na demanda de 70,5% em relação ao que foi entregue em 2017. Para complicar um pouco mais, o levantamento também leva em conta as mudanças climáticas e considera um acréscimo de 1ºC na temperatura máxima até 2040, o que elevaria o consumo de água em 2,4%.

Ok, já deu para entender o tamanho do problema. Mas a questão fundamental é: de onde vamos tirar toda essa água? O presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, responde: “Para atender a essa demanda incremental da água necessária à expansão demográfica, crescimento econômico e pelas necessidades da universalização do abastecimento, as cidades e o setor de saneamento terão que dar respostas. Para não pressionar demais os recursos hídricos serão necessários altos investimentos em reservatórios, tratamento de esgotos e, principalmente, na redução das perdas, com troca de redes e eficiência na distribuição de água potável. Além disso, teremos que monitorar com atenção as áreas em que o aquecimento global pode provocar menos chuvas e ainda mais escassez de recursos”.

Dados da ONU indicam que o consumo diário de água por habitante deveria ser da ordem de 110 litros, quantidade considerada necessária para uma pessoa viver confortavelmente. No entanto, segundo informações do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), o consumo médio do brasileiro girava em torno de 153,56 litros por pessoa, em 2017. Sendo que, em algumas cidades, o consumo médio era de inacreditáveis 5,1 litros diários, enquanto em outras ele chegava a 1.628 por habitante. Importante lembrar que o consumo per capita não é o consumo real de cada pessoa, mas o consumo total dividido pela população, o que inclui a água usada no comércio, nas escolas, hospitais, bares, restaurantes, condomínios e na limpeza urbana. De qualquer maneira, a desigualdade é flagrante e coerente com a história do país. Veja alguns dados sobre o consumo e a distribuição de água no Brasil:

  • 83,7% dos brasileiros são atendidos com abastecimento de água tratada;
  • São quase 35 milhões de pessoas sem acesso a este serviço básico;
  • Em 2016, 1 em cada 7 mulheres no Brasil não tinham acesso á água. Enquanto no caso dos homens essa proporção é de 1 em cada 6;
  • 6,8% das crianças e dos adolescentes não contam com sistema de água dentro de suas casas;
  • Apenas 27 das 100 maiores cidades brasileiras possuem 100% da população atendida com água potável;
  • O Estado do Rio de Janeiro é o que mais consume água, cerca de 207 litros por pessoa;
  • 7,1 mil piscinas olímpicas de água potável são perdidas ou desperdiçadas todos os dias;
  • A Região Norte é a campeã em perdas de água potável, mais de 55%;\

Fonte: Projeto Colabora