Funcionários trabalham na linha de produção do CoronaVac, vacina da Sinovac Biotech contra o coronavírus COVID-19, no centro de produção biomédica do Instituto Butantan, em São Paulo – Foto Nelson Almeida/AFP

O ano de 2021 começa de forma trágica e o drama de Manaus é a parte mais dolorosa e visível de uma calamidade pandêmica nacional e global. Os números gerais da covid-19 preocupam e assustam, pois já são mais de 2 milhões de vidas perdidas e quase 100 milhões de pessoas infectadas globalmente. Os recordes são deploráveis, mas, infelizmente, estão se sucedendo cada vez mais rápido.

No dia 12 de janeiro, o mundo registrou a incrível marca de 17.186 vítimas fatais para a covid-19, sendo 4.327 óbitos somente nos EUA, segundo o balanço da Universidade Johns Hopkins. Para efeito de comparação, no ano passado, o montante de 17 mil mortes foi superado apenas no dia 24 de março. O balanço quinzenal é revelador, pois o número de casos e de mortes na 1ª quinzena de janeiro de 2021 superou todos os valores quando comparados com os montantes anteriores. Nos primeiros 15 dias do ano, o mundo registrou mais de 10 milhões de pessoas infectadas, valor equivalente à de todo o 1º semestre de 2020. Registrou também quase 200 mil mortes na quinzena, valor semelhante ao atingido nos primeiros 115 dias de 2020.

No Brasil, a situação não tem sido menos dramática. Nos primeiros 15 dias de 2021 houve 780 mil novos casos da doença, equivalente ao valor alcançado nos primeiros 165 dias de 2020 e houve 14,3 mil mortes, equivalente ao valor dos primeiros 140 dias de 2020. O aumento do número de casos e da taxa de ocupação dos leitos hospitalares na primeira quinzena de janeiro indicam uma provável elevação do número de mortes no restante do mês.

Homens batem panelas em protesto contra o presidente Jair Bolsonaro ao proferir um discurso na TV, em Brasília, no dia 15 de janeiro – Foto Sérgio Lima/AFP

A tragédia Amazônica

A repetição do caos na saúde pública de Manaus desmente o senso comum de quem acha que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar e que a história nunca se repete enquanto tragédia. Na verdade, a capital do Amazonas demonstra que uma situação muito ruim pode ficar ainda pior.

No mês de abril de 2020, o sistema de saúde e o sistema funerário de Manaus entraram em colapso. No dia 26/04 foram registrados o recorde de 140 sepultamentos, sendo que a prefeitura anunciou que vários enterros seriam feitos em urnas lacradas e em valas comuns. No clima quente de desconfiança e desconforto de Manaus, famílias começaram a abrir caixões lacrados à beira das covas coletivas para ter certeza de que estavam enterrando seus parentes. No cemitério de Tarumã, sob o sol amazônico, houve incríveis relatos sobre o cheiro acre dos corpos entrando em decomposição, enquanto o odor forte e nauseante se espalhava ao redor do necrotério.

Passado os momentos mais críticos da 1ª onda pandêmica, o número de casos e de mortes pela covid-19 diminuíram e diversas pessoas, muitas delas defendendo interesses particulares, passaram a difundir a tese de que o pior já tinha ficado para trás e que a cidade havia atingido a “imunidade de rebanho”. Contudo, diversos infectologistas alertaram sobre a possibilidade de uma 2ª onda.

A suspeita de uma 2ª onda se tornou realidade com o crescente desdém ao distanciamento social e ao menosprezo pelas medidas preventivas ocorridos durante os dois turnos das eleições municipais de novembro e das festividades de fim de ano. Nem o poder público foi capaz de restringir o contato social e nem a sociedade civil colaborou com o controle do contágio através da prevenção individual e coletiva. O descontrole da pandemia permitiu a difusão de uma nova variante do coronavírus identificada no Amazonas e que parece ser mais transmissível. Por tudo isto, o número de pessoas infectadas disparou na virada do ano, em seguida cresceu o número de internações e o aumento de vítimas fatais foi a consequência inevitável.

O governo vacila na questão da vacina

O governo Federal tratou a pandemia da covid-19 com a política dos “3 Ds”: Descaso, Desprezo e Displicência. Não fez uma barreira sanitária efetiva para evitar a propagação do vírus pelo território nacional. Não fez um rastreamento e um monitoramento das pessoas infectadas. Não incentivou o uso de medidas preventivas como o uso de máscara, álcool em gel, distanciamento social etc. O Brasil não teve uma sinergia entre o Poder Público e a sociedade civil que foi a base do sucesso dos países que conseguiram eliminar o SARS-CoV-2. E mesmo o Brasil estando no topo do ranking dos países com maior número de pessoas infectadas e com maior número de vítimas fatais, as autoridades do Poder Executivo da União não se prepararam para planejar e implementar um plano de imunização para atender a população nacional.

O Brasil começou o ano de 2021 no segundo lugar global em número de mortes e no terceiro lugar no número de casos da covid-19, mas na lanterna da corrida por uma vacina contra o novo coronavírus. A vacina Pfizer/BioNTech foi a primeira no mundo a obter autorização em caráter de urgência e já está sendo administrada em cerca de 40 países, mas não há contrato de fornecimento para o governo brasileiro. A vacina da Oxford/AstraZeneca desenvolvida no Brasil em parceria com a Fiocruz, depende de insumos fabricados na Índia. O governo Federal montou toda uma operação logística para obter, em caráter de urgência, 2 milhões de doses. Mas a despeito de uma carta ao Primeiro-ministro indiano Narendra Modi e de equipar um avião para percorrer o “caminho das Índias” com urgência, a Índia tem outras prioridades e o Brasil “ficou a ver navios”. A Anvisa rejeitou um pedido inicial de uso emergencial da vacina russa Sputnik V. Desta forma, sobrou a vacina CoronaVac, desenvolvida no Brasil pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

Embora o presidente Bolsonaro tenha dito que não vai se vacinar e que “Não compraremos a vacina da China e do Dória”, o governo Federal ficou sem alternativas e não quer permitir que o Estado de São Paulo inicie a vacinação, de forma pioneira no país, no dia 25 de janeiro. Desta forma, o Ministério da Saúde exigiu que o Instituto Butantan entregue todas as 6 milhões de doses disponíveis da CoronaVac, mesmo antes da aprovação do uso pela Anvisa. Ou seja, no momento em a pandemia bate todos os recordes no Brasil, com média de mais de 50 mil infecções diárias e o número de vidas perdidas esteja na casa de 1.000 óbitos diários, as poucas doses disponíveis são objetos de uma guerra política para saber quem sai na frente na disputa eleitoral de 2022. Enquanto os cidadãos brasileiros aguardam ansiosos a definição da data de início da imunização, o general Pazuello – em seu tom característico de desmazelo – disse que a vacinação vai começar no “Dia D e Hora H”. Mas o mundo não para, continua girando e a vacinação já caminha a passos largos em terras estrangeiras.

Já existem mais de 55 países que iniciaram a vacinação em larga escala contra a covid-19. Segundo o site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford, o mundo já aplicou 38,5 milhões de doses de vacina até o dia 15 de janeiro, com os EUA e a China administrando mais de 10 milhões de doses e Reino Unido, Israel, Emirados Árabes Unidos, Itália, Alemanha e Rússia aplicando mais de 1 milhão de doses cada. O gráfico abaixo mostra como está a vacinação na 1ª quinzena de janeiro, em termos relativos. Percentualmente, Israel não vacilou e já vacinou 25,8% da sua população, os Emirados Árabes Unidos vacinaram 18,2%, Bahrein 7,2%, Reino Unido 5,9%, EUA 3,7% e assim por diante. Na América Latina já iniciaram a vacinação Argentina, Chile, Costa Rica e México. Em termos percentuais o mundo vacinou 0,49% da população global.

Fonte: Projeto Colabora