Médicos acreditam que a perda dos movimentos possa ser causada pela Síndrome de Guillain-Barré ou por anomalias neurológicas, ambas desencadeadas pelo coronavírus.

Estudante perdeu o movimento das pernas após contaminação pela Covid-19 em Santos, SP. — Foto: Arquivo Pessoal
Estudante perdeu o movimento das pernas após contaminação pela Covid-19 em Santos, SP. — Foto: Arquivo Pessoal 

Um jovem de 21 anos perdeu o movimento das pernas por complicações da Covid-19 em Santos, no litoral de São Paulo. Kauê Fhelipe Almeida de Morais foi contaminado pelo vírus da Covid-19 no início de novembro de 2020. 

Os primeiros sintomas foram a perda dos sentidos do olfato e do paladar e tosse seca. Ele recebeu o diagnóstico médico e iniciou o período de isolamento de 14 dias. No último dia isolado, ele começou a sentir muitas dores nas pernas e na lombar, mas acreditou que eram sintomas comuns da doença, então, tentou fazer alguns alongamentos, para que as dores não piorassem. Contudo, no dia seguinte, os incômodos só aumentaram e ele começou a ter dificuldades para andar. 

Após orientação da mãe, o estudante foi a uma consulta em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Santos, onde, segundo o santista, o clínico geral do hospital disse que não sabia do que se tratava exatamente e passou remédios para dores no corpo. Ele retornou ao local três vezes, mas nada foi descoberto. 

Na mesma semana, Morais não conseguia mais andar por conta das dores intensas e precisou do auxílio de uma cadeira de rodas. Ele decidiu pagar por uma consulta particular, onde o médico o encaminhou para uma ressonância da coluna e passou uma nova medicação, já suspeitando que as dores se tratavam de sintomas da Covid-19. 

Contudo, as dores foram aumentando, até que cerca de 10 dias após o início dos sintomas, ele começou a sentir dormência nas pernas e acabou perdendo os movimentos e a sensibilidade na região. O médico particular o encaminhou ao neurologista, que esclareceu que Kauê era o segundo paciente que ele atendia que foi contaminado com o vírus e perdeu o movimento das pernas. O especialista passou uma ressonância do crânio e um exame que retirava um líquido da medula para análise. Além disso, o paciente foi encaminhado à fisioterapia. 

Ele relata que, segundo o médico, os exames não apontaram nenhuma irregularidade. Contudo, baseado em outros casos semelhantes, o profissional relatou que a situação era decorrente de uma complicação rara causada pelo coronavírus, que ainda está sendo estudada. 

De acordo com o jovem, os médicos suspeitam de duas possibilidades, ambas decorrentes da Covid-19. A primeira é a síndrome de Guillain-Barré (GBS), uma desordem rara onde o sistema imunológico do corpo ataca os nervos, causando fraqueza e formigamento nos estágios mais leves e podendo causar paralisia nos casos mais graves. A segunda estimativa é de que o vírus tenha provocado anormalidades neurológicas, que prejudicaram a coluna torácica. 

O diagnóstico do estudante ainda está sendo analisado e, de acordo o mesmo, o neurologista acredita que o quadro é reversível. 

Enquanto isso, o morador de Santos vive a cada dia uma nova experiência e se adapta às novas limitações. “Minha mãe está me ajudando bastante na locomoção. Ela me carrega no colo para tomar banho, para fazer tudo. As dores diminuíram e o neurologista disse para seguir com a fisioterapia. Estou me acostumando”, relatou. 

Médicos estudam possibilidades após jovem perder o movimento e a sensibilidade das pernas. — Foto: Arquivo Pessoal

Médicos estudam possibilidades após jovem perder o movimento e a sensibilidade das pernas. — Foto: Arquivo Pessoal 

Segundo o jovem, ficar parado e preso no quarto foi um dos principais desafios desde de a contaminação com a doença. Ele conta que sempre foi uma pessoa ativa, agitada e que gostava de sair. 

Sobre a contaminação, o santista relata não saber como ocorreu. “Eu sempre me cuidei, mas sabia que minha hora de ser contaminado chegaria. Não sei como contraí. Por visitas que vinham aqui em casa, talvez. Mas agora não adianta mais saber como, olha onde eu estou agora. Às vezes eu penso como estou. Que loucura, eu não consigo nem levantar para ir no banheiro sozinho. Há dois meses atrás eu tomava banho em pé, andava de bicicleta. A vida é louca e inesperada”, desabafa. 

Mesmo com as perdas, Kauê tenta seguir enfrentando a fase de uma maneira leve e otimista. Ele acredita que, desta forma, e falando sobre seu caso, poderá ajudar outras pessoas que venham a passar pela mesma situação. 

“Eu sempre levei de uma maneira positiva. Assim que percebi a dimensão do que estava acontecendo, tentei relaxar o máximo possível. Vida que segue. Estou aprendendo bastante com isso. As pessoas que estão enfrentando a mesma coisa que eu, dependem de histórias como a minha. Elas precisam ouvir que está tudo bem e que a gente vai sair dessa de alguma maneira” 

Ele explica que a mãe está bem preocupada, mas tem visto e acompanhado a evolução do filho. Atualmente, o jovem não anda, não sente as pernas e não consegue fazer força na região inferior do corpo. Mas, agora, se adapta a sua nova fase. 

“Ainda não contei para todos os meus amigos, não queria me expor. Mas se for para conscientizar as pessoas, eu estou disposto a isso. Estou começando a me adaptar com a nova maneira que tenho que viver, seja ela momentânea, ou não”, finalizou. 

Kauê Fhelipe praticava slackline antes de perder o movimento das pernas em Santos, SP. — Foto: Arquivo Pessoal 

Síndrome de Guillain-Barré

Segundo o neurologista João Luis Cabral Júnior, o vírus da Covid-19 está trazendo muitas novidades para diversas áreas da medicina, pois pode causar alterações em vários sistemas do corpo humano. 

O especialista explica que a Síndrome de Guillain-Barré pode ser desencadeada por qualquer vírus que tenha contato com a medula, até mesmo o da gripe, pois causa a perda de uma proteína que transmite “eletricidade” à medula. 

Por isso, diversos vírus podem causar a doença, incluindo o coronavírus. Segundo Cabral, nesses casos, a medula começa a perder a proteína e desenvolver um déficit neurológico, causando formigamento dos membros e ausência de força. 

Contudo, ele ressalta que, pelo menos em torno de 70% dos casos, a situação realmente é reversível. Os outros 30% podem não voltar ao normal, ou voltar parcialmente, dependendo do grau de agressividade do vírus na medula.