Profissionais criticam falta de compromisso com avaliação e pressão na abertura de novos cursos.

Um novo grupo de pesquisadores ligados à Capes, órgão do MEC (Ministério da Educação) responsável pela pós-graduação no país, pediu renúncia coletiva nesta quarta-feira (1º). Desta vez, 28 profissionais solicitaram desligamento. Nos últimos dias, outros 52 fizeram o mesmo, o que totaliza 80 pessoas.

Na carta de renúncia, os três coordenadores de química e os 25 consultores criticam a falta de compromisso com a avaliação quadrienal por parte da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

“Estamos no final de 2021 e não se conhece nenhuma ação da Capes no sentido de discutir e elaborar o Plano Nacional de Pós-Graduação 2021-2030”, diz a carta.

“Entendemos que a avaliação quadrienal deve ser finalizada pelas atuais coordenações e consultores, mas, até o momento, não vemos por parte da presidência, quando indagada, nenhuma declaração de maneira inequívoca sobre a extensão dos mandatos dos atuais coordenadores, visando não deixar essa imensa lacuna aberta.”

Os profissionais também criticam a rapidez e empenho no procedimento para abertura de novos cursos de pós-graduação sem que a avaliação quadrienal tenha sido finalizada. Esse processo é chamado de APCN (Apresentação de Propostas de Cursos Novos).

“Passamos por vários governos, vários presidentes e diretores de avaliação. Nem sempre foi fácil, mas sempre tivemos pleno apoio e muito diálogo para que pudéssemos discutir e aprender muito”, diz a carta.

Os problemas apontados foram os mesmos citados pelos 31 pesquisadores da área de matemática/probabilidade e estatística, na renúncia divulgada na segunda (29).

Na semana passada, outros 21 profissionais da área de astronomia/física já haviam anunciado desligamento também por insatisfação com a presidência da Capes.

Esses pesquisadores trabalham nos processos de avaliação do sistema de pós-graduação do país. Os coordenadores são nomeados pela Capes para mandatos de quatro anos e o restante atua como assessor nesses trabalhos, todos em atividades não remuneradas.

Na segunda, após a renúncia coletiva dos profissionais da área de matemática/probabilidade e estatística, a Capes afirmou, em nota, que tem feito esforços para retomar a avaliação e defendeu a continuidade dos pedidos de novos cursos.

Há interesse de instituições privadas de ensino superior em terem aprovados programas de pós-graduação, muitas vezes para garantir status de universidade. Outro interesse, sobretudo do setor privado, é na liberação de cursos na modalidade EAD (ensino a distância). ​

A presidente da Capes, Claudia Mansani Queda de Toledo, chegou ao cargo em abril por escolha do ministro Milton Ribeiro. Ela enfrentou resistência por causa de seu currículo e por ter nomeado sua aluna de doutorado para diretoria internacional.

O pedido de renúncia na Capes ocorre em paralelo a outro processo de instabilidade em um dos órgãos do MEC. Na véspera do Enem, dezenas de servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) pediram desligamento de seus cargos de chefia após denúncias de assédio moral e pressão para alterar o conteúdo da prova.

Fonte: Folha de S. Paulo