Fila formou-se após a exigência de testagem na aduana; nesta sexta-feira, autoridades chilenas anunciaram que vão flexibilizar as medidas e aceitar PCRs negativos feitos com 72 horas de antecedência.

Mais de 5 mil caminhoneiros estão retidos há 18 dias em diferentes pontos da fronteira da Argentina com o Chile. Desse total, cerca de 2 mil são brasileiros, de acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL).

Os veículos estão parados desde que a aduana deixou de aceitar testes de Covid-19 realizados fora do território chileno, segundo a CNTTL. Apesar da exigência, as autoridades sanitárias não têm conseguido atender a demanda de testagem.

A fila de veículos deve começar a diminuir apenas neste fim de semana. No fim da tarde desta sexta-feira, a província de Los Andes, do Chile, informou que vai flexibilizar as medidas sanitárias. As autoridades chilenas anunciaram que vão realizar testes aleatórios em motoristas de caminhão e passarão a aceitar PCRs negativos que foram realizados há menos de 72 horas.

As medidas, no entanto, só valem até o dia 2 fevereiro. Nesta data, os condutores terão de apresentar testes PCR negativo realizados em no máximo 48 horas antes do ingresso no Chile.

Filas de caminhões

Nos 18 dias com a exigência de testagem na própria aduana, filas de caminhões se formaram ao longo da fronteira do Chile com a Argentina e também com a Bolívia. A maior delas fica na região de Cristo Redentor-Libertadores, na Argentina. Nesse trecho, o fluxo normal era de até 900 caminhões por dia, mas apenas 100 vinham conseguindo passar.

Fila de veículos retidos na fronteira da Argentina com o Chile Foto: STR / AFP
Fila de veículos retidos na fronteira da Argentina com o Chile Foto: STR / AFP

Durante a espera, os veículos ficaram estacionados na beira da estrada. Em um dos locais de concentração, havia somente dois banheiros para 700 caminhoneiros. Além dos brasileiros, há profissionais da Argentina, Paraguai, Bolívia e os próprios chilenos. Para ficarem melhor alojados, os condutores pediam a liberação do pátio de Aduana de Uspallata, em território argentino, que comporta até 600 caminhões.

— Temos relatos de colegas sem dinheiro e com a alimentação da viagem já acabando. Então você tem um problema de saúde, uma preocupação válida, que a gente defende e é favorável. Mas estão criando um outro com 5 mil pessoas reféns, sem banho, sem local de higiene e em aglomeração — disse Carlos Alberto Litti Dahmer, diretor da CNTTL.

Prejuízos econômicos

Nas carrocerias, há cargas de alimentos como frango e carne. E também produtos como maquinários e bobinas de papel. Para a CNTTL, é certo que haverá prejuízos econômicos com a retenção dos veículos.

— Como ficaram dias parados, eles querem saber se têm direito a diária, se têm algum valor a reclamar, porque estão ali lutando pela sobrevivência. Então vai ser difícil ter um acerto, porque não é responsabilidade do caminhoneiro, nem de quem envia a mercadoria e nem de quem comprou — disse Dahmer.

Nesta quinta-feira, a CNTTL protocolou ofícios cobrando a intervenção das autoridades brasileiras. O documento foi enviado aos ministérios das Relações Exteriores, Infraestrutura, Trabalho e Previdência e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

— Estamos buscando isso porque o governo brasileiro se fechou e está parecendo que o problema não existe. Mas está crescendo, está cada vez maior e é obrigação de quem governa dar proteção aos seus. Os caminhoneiros brasileiros estão desamparados em solo estrangeiro — criticou Dahmer.

A CNTTL também tem atuado com os sindicatos chilenos e argentinos. A entidade defende a aceitação de testes feitos na Argentina e que as autoridades do Chile façam testagens por amostragem na fronteira.

Reunião com autoridades chilenas

O Ministério das Relações Exteriores informou, por meio de nota, que acompanha a situação desde que tomou conhecimento, em 11 de janeiro.

Nesta quinta-feira, diz o texto, o ministro Carlos Alberto Franco França tratou do tema com o ministro das Relações Exteriores do Chile, Andrés Allamand.

Na terça-feira, prossegue o comunicado, Itamaraty participou de uma reunião sobre o assunto no âmbito do Acordo sobre Transporte Internacional Terrestre (ATIT/ALADI), que tem representação do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai.

“Nos contatos com autoridades chilenas, o Itamaraty tem chamado a atenção para a importância da fluidez do transporte internacional de carga na fronteira daquele país e para o tratamento digno dos motoristas”, diz a nota.

Em nota, a ANTT informou que está atenta à situação e que vem “atuando junto ao governo Chileno para flexibilização da entrada dos profissionais brasileiros no país vizinho. O objetivo é dar celeridade ao processo e garantir melhor fluidez para as operações de transporte que necessitam entrar no Chile”.

Fonte: O Globo