Para chegar a nível neutro de emissões até 2042, especialistas dizem que é necessário políticas públicas adequadas e comprometimento dos setores produtivos.

Região de Mata Atlântica na Floresta da Tijuca Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo (8/2/17)
Região de Mata Atlântica na Floresta da Tijuca Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo (8/2/17)

Se o bioma Mata Atlântica fosse um país, teria sido a 18º nação do mundo com maior emissão de gases do efeito estufa em 2018, à frente do Reino Unido. Com um desmatamento histórico de 115 milhões de hectares, o bioma é hoje o segundo maior responsável pelas emissões no Brasil, com 23% do total, atrás apenas da Amazônia (39%), seguido pelo cerrado (20%).

A queima de combustíveis fósseis tem participação relevante e responde por 37% das emissões. Ainda assim, as atividades agropecuárias e o desmatamento, somados, são responsáveis por metade das emissões, segundo estudo realizado em parceria entre a Fundação SOS Mata Atlântica, o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e o SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões Gases de Efeito Estufa), iniciativa do Observatório do Clima.

— Mesmo no bioma que reúne 80% do PIB brasileiro, o uso da terra ainda é o principal problema — diz Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da SOS Mata Atlântica.

Em meio às discussões da Cop-26 sobre redução de emissões de gases de efeito estufa, especialistas dizem que é possível tornar o uso da terra neutro em emissões a partir de 2042. Este resultado, porém, depende de políticas públicas adequadas e comprometimento dos setores produtivos com a meta de alcançar desmatamento zero em 2030, adoção de práticas de baixo carbono na produção agrícola e pecuária e a restauração, de hoje em diante, de 10 milhões de hectares de floresta até 2050.

No período total do estudo, de 2005 a 2050, a área a ser restaurada com floresta chega a 15 milhões de hectares, o equivalente a mais de três estados do Rio de Janeiro, mas a natureza já se encarregou de parte disso. Do total desmatado, 5 milhões foram regenerados e se tornaram mata secundária.

Apenas o setor de uso da terra na Mata Atlântica, concluíram os especialistas, tem potencial de diminuir as emissões totais do bioma, até 2050, em até 6,28 bilhões de toneladas de CO2 equivalentes (medida usada para comparar as emissões de vários gases de efeito estufa baseado no potencial de aquecimento global de cada um).

— É uma meta ambiciosa, mas não utópica. Não há barreira tecnológica que a torne inatingível. É uma questão de adotar políticas públicas compatíveis — diz Guedes Pinto.

Programas de recuperação de pastagens, adoção de sistemas agroflorestais e implementação do Código Florestal são medidas necessárias, mas, segundo Guedes Pinto, é preciso fazer mais do que a lei exige. Recuperar apenas as Áreas de Proteção Permanente (APPs), como determina o Código Florestal, significaria reflorestar 4 milhões de hectares de florestas.

Para se ter uma ideia, 20% do rebanho bovino brasileiro está em áreas de Mata Atlântica. Segundo Guedes Pinto, o estudo indica é possível reduzir a área de pasto de 37 milhões para 21 milhões de hectares, com aumento do rebanho, e ainda expandir a área agrícola de 17 milhões para 25 milhões de hectares, com aumento de produtividade, até 2050.

— Podemos produzir muito alimento, aumentar a renda e restaurar florestas — diz ele.  
O estudo também aponta outros caminhos para reduzir as emissões no bioma, como substituição dos combustíveis fósseis no transporte, tratamento de esgoto e lixo e criação de áreas protegidas. Atualmente, os estados de Minas Gerais, Bahia, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul registram os maiores desmatamentos de Mata Atlântica.

Fonte: O Globo