O coordenador do Comitê Científico do Consórcio do Nordeste, Miguel Nicolelis, um dos maiores pesquisadores e cientistas do país, confessou à TV 247 que seu otimismo para 2021 em relação à pandemia de Covid-19 “sumiu”. Segundo Nicolelis, a expectativa de que até o meio do corrente ano o vírus estivesse mais controlado não existe mais porque políticas públicas que deveriam ter sido adotadas não foram colocadas em prática.

Agora, de acordo com o cientista, a pandemia deve se manter em níveis elevados no Brasil até o final do ano. “Não vamos dar conta em 2021, o ano todo. Não estou falando mais do que eu pensava em julho do ano passado que em 2021 nós iríamos ter essa crise controlada. Estou começando a achar que 2021 já está indo para o buraco”.

“A gente esperava no meio do ano passado que, com a introdução das vacinas no começo do ano, com a realização de lockdown e de medidas corretas, nós estaríamos em uma situação muito melhor do que estamos no começo desse ano. A gente esperava que isso ia começar no início do ano e ia quebrar a taxa de transmissão do vírus em alguns meses, então eu esperava que para julho nós íamos ter uma melhora significativa do quadro”, contou. 

Nicolelis relatou que os números de casos, óbitos e internações por coronavírus em todo o Brasil já mostram um cenário mais trágico para os próximos meses do que ele podia imaginar anteriormente. “Com a crescida dos casos e óbitos e com as taxas de internação cruzando os 80% de maneira síncrona em todo o país e a campanha de vacinação não decolando, eu estou achando que essa crise nos leva até o final de 2021, crise no sentido de que ainda teremos o vírus circulando em grande número, curvas que vão subir e descer. O otimismo que eu tinha em julho e agosto, quando a coisa começou a dar um pouco de refresco, sumiu porque o apetite no Brasil de se fazer o que tem que fazer antes da vacinação também sumiu, e isso é muito preocupante”.

Em desabafo, Nicolelis exaltou seus colegas do comitê do Consórcio do Nordeste, chamando-os de “heróis”, e disse que muitos deles choram durante reuniões sobre a pandemia porque não são ouvidos pelas autoridades públicas e, consequentemente, assistem à situação brasileira piorar diante de seus olhos. “Nós, os colegas, os jovens brasileiros cientistas das universidades federais que trabalharam no nosso comitê voluntariamente, passando madrugadas acordados, deixando filho, família, obrigações outras para criar relatórios, para fazer modelagem matemática, eu chamo esses moleques, esses meninos e os mais velhos de heróis. Esses são os verdadeiros patriotas brasileiros. Eu telefono para gente às três horas da manhã pedindo um gráfico e o pessoal fala: ‘daqui meia hora está com você’. E todos eles estão sofrendo demais. Estão olhando esses números e as pessoas, no meio de reunião, começam a chorar. A gente não quer mais reunião burocrática, a gente quer ação, a gente quer que a gente seja ouvido porque a gente não está falando besteira”.

Fonte: Brasil 247