Defensor do eletrochoque, o psiquiatra Rafael Bernardo Ribeiro é o novo coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, da Secretaria de Atenção Primária à Saúde, órgão ligado ao Ministério da Saúde – Foto: Redes Sociais/Reprodução

Ministério da Saúde nomeou o psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro para o cargo de coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, da Secretaria de Atenção Primária à Saúde.

A publicação no Diário Oficial da União foi assinada pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, nesta quinta-feira (18).

Segundo consta em seu currículo, o médico já foi consultor do Ministério da Saúde de novembro de 2018 a dezembro de 2019. Além disso, foi coordenador adjunto na Coordenação-Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas da pasta de novembro de 2017 a julho de 2018.

Ele também atuou como assessor técnico na área de Saúde Mental do governo de São Paulo de abril de 2012 a dezembro de 2018.

Atualmente, atua em tempo integral como diretor técnico do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Em redes sociais, o psiquiatra declarou voto em Jair Bolsonaro (sem partido) e compartilha publicações do presidente e textos que atacam o STF (Supremo Tribunal Federal). “A maior vergonha do Brasil hoje se chama Supremo Tribunal Federal”, diz uma das postagens.

médico entrou no lugar de Maria Dilma Alves Teodoro, que pediu demissão do cargo em dezembro em meio a uma ofensiva do governo Bolsonaro para revogar uma série de portarias que estruturam a política de saúde mental no país e que vigoram desde a década de 1990.

Teodoro era coordenadora da área desde fevereiro de 2019. Foi nomeada pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta, que deixou o governo no ano passado após entrar em conflito direto com Bolsonaro sobre a condução do Ministério da Saúde na pandemia de Covid-19.

O médico é um grande defensor do tratamento com eletroterapia. Em uma entrevista feita ao Canal da Psiquiatria, em 2013, o médico chegou a dizer que a terapia havia virado o seu mantra. “A eletroconvulsoterapia é um tratamento utilizado na medicina desde 1938, ele persiste justamente por ser muito bom. Tem uma resposta na ordem de 90%, o paciente tem algum benefício em 9 a cada 10 casos tratados.”

Segundo Ribeiro, o procedimento deve ser realizado em casos mais graves. “São justamente em casos mais graves que não tem nenhuma resposta a nenhum medicamento em geral em mais de três, quatro, cinco tentativas combinadas ou não”, disse.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) regula o uso da eletroconvulsoterapia desde 2002 no país, mas muitos ainda associam esse tratamento aos métodos de tortura e crueldade do passado.

O método é indicado em quadros de depressão grave, risco de suicídio iminente, transtorno bipolar, forma catatônica da esquizofrenia, casos em que o paciente não responde às medicações ou não pode ingeri-las.

A terapia faz parte dos chamados tratamentos biológicos em psiquiatria, cujos efeitos não dependem de medicações ou dos resultados farmacológicos, mas, sim, de alterações neurofisiológicas geradas a partir de um estímulo, no caso, elétrico.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo, Marcelo Feijó, disse que o método possui respaldo científico.

Ele avalia que a prática é segura e eficaz, o paciente não sente dor e nem incômodo. O procedimento só pode ser feito dentro de um hospital, ao lado de um médico psiquiatra e um anestesista. São utilizados relaxante muscular e anestesia.

“É uma técnica bastante antiga que teve evoluções, foi sendo melhorada e é praticada no mundo. Ela é mais eficaz que antidepressivos, 90% das pessoas saem da depressão com o tratamento, índice superior à terapia feita com medicamentos”.

O psiquiatra Marcos Fidry Muniz, acrescenta que o procedimento vem sendo adotado por vários hospitais e clínicas psiquiátricas no país.

Ele disse que a eletroconvulsoterapia é geralmente indicada em casos graves, quando as medicações não surtem mais resultado. Entretanto, em alguns casos pode ser a primeira escolha de tratamento como numa depressão muito grave, com risco de suicídio.

“A eletroconvulsoterapia é um tratamento eficaz, seu uso é totalmente baseado em evidências científicas, porém carregado de preconceitos devido ao uso desprovido de indicação no passado e pela desinformação generalizada sobre o assunto.”

Maria Alice Saccani Scardoelli, médica psiquiatra e conselheira do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), esclarece que método é utilizado apenas em instituições que possuem equipe e aparelhos apropriados para realizar o procedimento.

“Importante deixar claro que antes de o paciente ser submetido a tal procedimento, ele ou seu responsável legal assina o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, bem como passe por completa avaliação médica.”

Feijó acrescentou que alguns efeitos colaterais podem surgir, como dor de cabeça, dor muscular e uma perda pontual de memória. Entretanto, nada que possa gerar risco à saúde do indivíduo.

“A mais comum é dor de cabeça, mas pode apresentar outros sintomas, como a perda de memória. A pessoa esquece, por exemplo, como chegou ao hospital, isso ocorre em alguns casos e não é nada que prejudique o paciente.”

Fonte: Folha de S. Paulo