Sergio Buarque, o escritor e pai do Chico, em seu livro Raízes do Brasil, de 1936, cita a percepção de um escritor inglês que caracterizaria o Brasil: “Sempre este significativo abandono que exprime a palavra “desleixo”—palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como “saudade” e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que “não vale a pena…”

O desleixo, a turma do “não adianta”. Não adianta ensinar, porque não vai dar em nada. Não adianta limpar, porque vai sujar de novo. Não adianta mudar, porque vai dar na mesma.
Adianta, sim.

Vivemos um período de profundo desleixo com a cidade que parece não nos pertencer, com o outro que sempre nos soa estranho, conosco mesmo que já não nos imaginamos mais tal qual éramos – ao menos, antes da pandemia.

A turma do “não adianta” funciona assim: eu faço uma crítica a algo errado pelas redes sociais, esbravejo e me vejo livre do problema, sem mexer a bunda da cadeira; os outros é que cuidem disto. Desleixo. Abro o Face, está lá: loja de poderoso grupo econômico em Ipanema avança com estruturas de aço e vidro sobre a calçada. As frases sacolejam a tela do celular ou do computador:

“Ó Deus, nos acuda! Que absurdo; como permitem isto?” “Onde está o Prefeito que nada faz?”
“Onde está o Estado que cobra impostos e não nos defende?”

Muitas interrogações parecem conduzir a uma indignação geral, a um movimento cívico-comunitário qualquer. Mas, não… Tomo a singela iniciativa de sugerir, ainda pelo mesmo Face, a mais comezinha atitude que existe (de graça!) nos estados democráticos de Direito – bem ou mal, ainda o somos. Qual? Ir à

autoridade competente do Poder Público denunciar a violação de regra urbana. Dou todas as indicações: como se trata de Ipanema, o órgão responsável pelo Licenciamento de Obras se encontra na Administração Regional da Lagoa endereço tal; chegue lá e redija, à mão mesmo, uma denúncia de que tal fato grave ocorre em tal endereço etcetera. A qualquer um do povo é permitido realizar tal feito.

Ao final, me coloco à disposição para qualquer orientação e peço, apenas, que me informem do andamento; afinal, eram mais de 30 os reclamantes nas redes sociais. Após o meu post, o que aconteceu? Nada. Ninguém se moveu. A turma do “não adianta…” Desleixo com a cidade, com o outro, consigo mesmo.

Sempre tem sido assim, desde o Brasil Colônia, o Brasil Império, o Brasil desta República. Vem piorando; o exemplo vem de cima. Antes, havia telefonemas, arrumava-se algum tempo, as pessoas se encontravam. Eram poucos os que se moviam… mas se moviam, de alguma forma.

Assim foi, entre 1979 e 1981, no caso da figueira da rua Faro (no bairro do Jardim Botânico), o primeiro bem natural tombado no Estado do Rio. Um parecer do botânico Pedro Carauta, assegurava que a “cidadã” (a árvore) Ficcus Tomentella estava vivendo ali, próximo à Capela de Nossa Senhora da Cabeça, já havia mais de 350 anos.

Não era uma luta ecológica. Era um ser vivo que ali já estava e que tinha o direito de ali permanecer por mais 350 anos. Não merecia ser arrancada com seus 20 metros de copa e outros tantos de altura para dar lugar a mais um prédio. O movimento iniciado mobilizou gente do bairro e levou à fundação da Associação de Moradores. Era uma luta séria e alegre, ao mesmo tempo, contra o Clube de Aeronáutica (proprietário do terreno), em pleno governo militar, mas uma luta da qual um atuante grupo não se descuidou, dia e noite, durante dois anos. O fio condutor era fazer o Poder Público agir – sempre denunciando à Administração Regional, à Polícia, ao Poder Judiciário por escrito, demandando ações nos

órgãos de patrimônio, todos do grupo mexendo a bunda em busca dos recursos legais disponíveis.
Resultado: a árvore foi preservada e o edifício, que iria ocupar todo o terreno, recuou e ganhou dois andares a mais. A cidade, no entanto, ganhou muito mais, preservando o seu bem comum. O mesmo se deu, recentemente, com a restauração do portão do Parque Guinle, devolvido com todos seus querubins em bronze – iniciativa que um grupo de idealistas vem realizando com a iniciativa privada: o Revitaliza Rio.

Adiantou. Sempre adianta. Um pouco que seja. Essa sensação de pertencimento e irmandade com a árvore, o parque, a rua, a calçada, o prédio, a vizinhança. Adoro o filme Perfume de Mulher. Na cena final, o Coronel Slade (interpretado por Al Pacino) vai a uma escola de adolescentes ricos defender um jovem não-rico, que o acompanhara em viagem dias antes. O jovem estava sendo injustiçado e o Coronel discursa, inflamado: “Deixem que este jovem continue sua jornada. Um futuro valioso. Não o destruam. Protejam-no. Abracem-o”.

Deixem que esta cidade, injustiçada, continue sua jornada, protegida, abraçada. Mexam-se.

Leonel Kaz é editor e jornalista