Entre as aldeias e a academia, os artistas de ‘Véxoa: Nós Sabemos’ investigam sobre a própria existência, cultura e tradição, além de buscar formas de provocar o sistema.

Foto: Divulgação

Se considerarmos um artista aquele que tem a habilidade “de fazer algo” – uma pintura, escultura ou cestaria – quase todos na aldeia são artistas. No entanto, a partir do momento em que eles levam esse trabalho para o sistema do homem branco, arte automaticamente vira um aparato político. E é essa premissa que precisamos ter em mente ao entrar na mostra Véxoa: Nós Sabemos, uma coletiva com trabalhos de 24 artistas indígenas, curada pela também artista Naine Terena, do povo Terena, que abre hoje na Pinacoteca de São Paulo.

Apesar de lideranças como Ailton Krenak terem voz desde os anos 1970, é importante notar que uma importante leva de artistas e curadores indígenas ganharam espaço no mercado artsy nos últimos 5 anos e todos eles – apesar das diferentes etnias, mídias e estéticas – têm um objetivo comum: ‘indigenizar’ os processos de produção de conhecimento e a noção de arte. A imagem do indígena no Brasil foi construída a partir das artes plásticas e literatura. E é por meio dessas narrativas, então, que eles pretendem mudar a visão estereotipada criada desde a invasão do Brasil. “Na literatura o índio sempre  aparecia como selvagem e preguiçoso, um personagem onírico, muito distante, quase uma fada”, se diverte Denilson Baniwa com toque de sarcasmo. Nos quadros pintados pelos viajantes, não era diferente: pense em “Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles, e nos desenhos de Theodore de Bry que representavam os rituais antropofágicos dos tupinambás. “E essa imagem do índio como alguém que está à margem do progresso vai para os livros do ensino médio e o indígena aparece apenas no início da história do Brasil e depois não é mais mencionado; vira um ser exótico, quase mitológico”, completa o artista. O resultado? Gustavo Caboco conta que quando falava na escola que a mãe é Wapichana, as pessoas riam alto como se fosse uma piada. Yacunã Tuxá, Daiara Tukano, Edgar Kanaykõ e Arissana Pataxó relatam que com frequência escutam que “índio não tem celular” ou a pergunta “você é índia de verdade?” “Como se existisse índio de mentira”, contesta Arissana. O questionamento, inclusive, já virou “piada interna” e foi parar em uma das ilustrações de Yacuña. “Quero apresentar o meu cotidiano, mostrar que eu ando com roupas comuns, para que as pessoas entendam que a identidade é uma coisa que está por dentro. Não é um acessório”, explica a artista. Arissana contesta: “Essa imagem é construída pelas escolas e pela mídia. Mas nós somos um povo que vive na floresta e também na cidade. E há uma diversidade muito grande. É um erro considerar que índio é tudo igual” – de acordo com o IBGE, o Brasil abriga 305 diferentes etnias, cada uma com sua cosmologia, saberes e crenças.

Muitos são os motivos para essas conquistas, mas a facilidade da comunicação no mundo tecnológico ajudou tanto quanto a formação nas universidades. Uma leva significativa de indígenas deixaram suas aldeias nos últimos anos para estudar e, com esse conhecimento, entenderam como poderiam elaborar estratégias para se fazer ouvir numa sociedade tão eurocentrada como o Brasil.  “Nós finalmente entendemos os processos e práticas do mundo modernos. Quando saímos das faculdades, compreendemos como muita coisa está errada e como provocar esse sistema”, explica Denilson Baniwa.

Com um olho no Instagram e outro nas sabedorias ancestrais, todos eles seguem resistindo – como sempre fizeram há 520 anos.”A nossa vida é um eterno fazer e pensar em estratégias para seguir existindo. Para nós, não existe diferença entre arte e vida, entre arte e resistência”, ressalta Denilson. Precisamos agora é aprender com os indígenas e remar juntos.

1. Yacunã Tuxá, indígena do povo Tuxá Aldeia Tuxá mãe, Bahia

Yacunã Tuxá. Foto: Divulgação

Ela desenhou duas mulheres indígenas se beijando. Recebeu milhares de mensagens e entendeu o potencial de sua fala. Yacunã Tuxá, que se autointitula “indígena sapatona”, começou a ganhar espaço no mundo artsy com ilustrações digitais que questionam estereótipos da mulher indígena e da sociedade heteronormativa. “Sofremos preconceitos de todos os lados. Sou lésbica e esta opção sexual ainda é pouco compreendida das aldeias e muita gente acaba mudando para a cidade para fugir da opressão. Ao mesmo tempo, quando nos envolvemos com a comunidade LGBT, sofremos preconceito por ser indígena. Você acha que a pessoa é descolada e ela te pergunta se você é índia de verdade. Isso é muito violento!”, explica Yacunã.  Ela cresceu na aldeia Tuxá Mãe, na Ilha da Viúva, às margens do rio São Francisco, e hoje vive em Salvador, onde cursa Letras na UFBA. Yacunã desenhava quando criança e voltou a rabiscar por saudade de sua origem, como processo de cura. “Comecei a desenhar essa mulheres que têm um pouco de mim, mas representam o meu povo. Penso muito nas minhas ancestrais que foram apagadas da história, foram vítimas de violência e nos indígenas em geral que foram silenciados. Meus desenhos são feitos para não esquecer”, explica. Ela também conta que sofreu durante muito tempo por não se achar bonita “Estes personagens também nascem para decolonizar a visão de beleza e do que é ser uma indígena lésbica vivendo em um território urbano. Quero apresentar o meu cotidiano, mostrar que eu ando com roupas comuns, para que as pessoas entendam que a identidade é uma coisa que está por dentro. Não é um acessório”, diz. Para criar diálogos com outras indígenas LGBT, Yacunã participa do Coletivo Tibira.

2. Jaider Esbell (Kaikan), indígena do povo Macuxi Raposa Serra do Sol, Roraima

Arte do artista Jaider. Foto: Divulgação

Artista, escritor, curador e produtor cultural, Jaider Esbell precisou ir cedo para a cidade para estudar português e logo entendeu que poderia usar a linguagem branca e a arte a seu favor. “Minha história sempre foi de violência. Aqui nós vemos o encolhimento da floresta todos os dias e esse tipo de agressão já está banalizada. Faço arte para denunciar e também para socializar, criar identificação com quem vê a obra. Quero reavivar memórias coletivas e individuais que estavam adormecidas e tentar manifestar diálogos. A ideia é colaborar para a criação dessa identidade brasileira que é tão plural e desconhecido; e colocar os índios protagonizando uma manchete positiva”, explica o artista que pediu demissão em 2013 para viajar pelo Brasil com a série It was Amazon debaixo do braço organizando mostras em universidades em todo o país, “levantando o astral dos parentes que estavam perdendo a identidade” e instigando-os a produzir suas artes. Composta por 16 desenhos, a série retrata os impactos da ação humana em busca do “progresso”.  “É um retrato não muito romântico da Amazônia e usei papel preto para criar uma linguagem de fim de mundo. No entanto, ao mesmo tempo que retrato a destruição da região, por uma necessidade de atender a economia global, eu trago a solução que está dentro da floresta”, revela um dos maiores catalisadores da produção artística indígena. É claro que, além das políticas locais e globais, as forças da floresta, o mitos e lendas do povo Macuxi são fonte constante de inspiração, mas Jaider também se interessa em  trabalhar com a diversidadde e coletividade. Na Pinacoteca ele apresenta Árvore de todos os saberes, painel onde desenhou uma grande árvore com círculos brancos no lugar dos frutos e nas pontas da raiz. O artista Macuxi convidou artistas de diferentes etnias para preencherem esses círculos brancos – é o que ele chama de “assinaturas culturais”. Para a 34ª Bienal de São Paulo, ele está produzindo junto com Gustavo Caboco:um encontro simbólico do povo Macuxi e Wapichana que dividem territórios em Roraima. Em Faz escuro mais eu canto, Esbell  apresentará 11 telas que representam as guerras dos Kanaimés – entidades Macuxi – e interferências nas 400 páginas do livro Carta ao Velho Mundo (endereçada aos europeus, é uma denúncia dos séculos de colonização devastadora nas Américas); e, um trabalho feito com as crianças da comunidade sobre Macunaíma.  O artista também irá assinar a curadoria de uma coletiva no MAM SP que acontecerá paralelamente à Bienal de São Paulo.

3. Naine Terena, indígena do povo Terena Aldeia Limão Verde, Aquidauana, Mato Grosso do Sul

“Na tribo todo mundo pinta, mas eu sempre me interessei mais por objetos, instalações e a relação entre arte e tecnologia”, explica a artista e curadora Naine Terena que estudou comunicação social, teatro e artes plásticas. Para o The Circa, projeto de arte virtual organizado por Fernando Velasquez, ela criou o filme Diário mínimo e, agora, ela está elaborando um material audiovisual precioso: O teu, o meu, o nosso é a série de depoimentos de suas parentes indígenas sobre a pandemia somados a imagens que traduzem estas falas pelo o olhar de Naine. Outra série atualíssima é Umbigo do mundo. “É sobre o momento que estamos vivendo, quando é preciso endurecer nosso útero para algumas coisas, sem perder a ternura”, explica.  Além curadoria da Véxoa: Nós sabemos acaba de abrir na Pinacoteca, Naine irá apresentar uma obra no TePI – Teatro e os povos indígenas, festival curado por Ailton Krenak (ainda sem data). Para a mostra 3M de arte, em 2019, ela construiu a instalação Prosperidade feita com sementes e livros. “É preciso compreender o que é próspero e o que é possível no século 21. Na minha percepção o público pode, a partir da visualização desses elementos, entender que existem vários mundos dentro do que conhecemos e que podemos ter outras possibilidades de mundos futuros. E cabe a nós refletir como isso se articula”.

4. Edgar Kanaykõ Xakriabá, indígena do povo Xakriabá Território Xakriabá, em Minas Gerais

Fotografia de Edgar Kanaykõ. Foto: Divulgação

É bastante comum ver imagem de comunidades indígenas registradas por antropólogos apaixonados, mas visualizar os costumes, personagens e eventos de uma aldeia pelos olhos de um indígena é uma experiência mais genuína e transformadora. Mestre em Antropologia pela UFMG, Edgar Kanaykõ começou a fotografar para contribuir para a associação de sua tribo que queria divulgar os costumes do povo Kanaykõ. Pegou gosto e hoje é um fotógrafo indígena influente. “No início os mais velhos ficaram desconfiados, mas agora todos entendem que essas imagens podem ser uma ferramenta de luta e preservação da nossa cultura”, explica o artista que chama a atenção para a riqueza do Cerrado. “Gosto de combater o estigma de que só tem índio na Amazônia. Não é essa imagem que nos representa. A terra é quem somos e por isso, para os indígenas, perdemos nossa identidade longe do nosso território. O cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e hoje somente 20% dele ainda possui a vegetação nativa em estado relativamente intacto. Edgar gostava de desenhar com grafite quando pequeno, mas durante a pandemia do COVID-19, começou uma experiência que já está gerando vendas: fazer ilustrações usando as ferramentas do stories no Instagram! “É o que posso fazer na minha aldeia  office” brinca.

5. Denilson Baniwa,  indígena do povo Baniwa Aldeia Darí, em Barcelos, à beira do Rio Negro, no Amazonas

Cobra-Metrô por Denilson Baniwa. Foto: Divulgação

“Quando eu penso em desistir, lembro que o Naruto nunca desistiu”, brincou Denilson Baniwa num vídeo em seu Instagram no qual ele substitui o próprio rosto pelo do herói japonês andando de patins. Ele estava comemorando a presença indígena na final do Prêmio Pipa deste ano – competição que ele ganhou em 2019.  Ativista dos direitos indígenas e o mais bem humorado da turma, Denilson é sempre provocativo e ácido. Se autodenomina um “artista antropófago”, pois apropria-se de linguagens ocidentais (especialmente a pop e urbana) para decolonizá-las em sua obra. Ele inicia sua trajetória como artista ainda na infância fazendo pintura corporal a partir do corante extraído do crajirú. Na aldeia todo desenho, seja ele figurativo ou gráfico, é criado para contar uma história ou nos conduzir para outro lugar. “Eles nos transportam para outro mundo e assim conseguimos entender o outro e compreender um mundo que não podemos ver com os olhos”, explica. Hoje ele mistura signos pessoais e sagrados, combinando simbologias tradicionais e referências contemporâneas ou da arte eurocêntrica. Apresenta um corpo indígena contemporâneo não estereotipado rompendo paradigmas criados durante séculos. Denilson trabalha com mídias variadas: pintura em canvas, grafite,  performances, instalações, trabalhos luminosos, tecnológicos e em mídias digitais. Mês passado, ele participou da exposição urbana Vozes contra o racismo, curada por Hélio Menezes, e cobriu a O Monumento às Bandeiras, estátua de Victor Brecheret na frente do Ibirapuera, com a projeção de Brasil Terra Indígena: um vídeo que mostra uma caravela portuguesa afundando pela ação dos ventos, da chuva, do fogo, do mar e, por isso, nunca chega ao porto. A partir desse naufrágio surgem bichos, plantas, seres espirituais da cosmologia Baniwa pintados com neon entre frases como Brasil Terra Indígena e  SP Terra Indígena.  A estátua de Brecheret é uma memória colonizatória e o trabalho, feito em parceria com o Coletivo Coletores, faz parte de uma intensa pesquisa sobre a voz indígena na construção das cidades e da ideia de nação brasileira. Para Véxoa: Nós sabemos, Denilson idealizou um trabalho dividido em 3 partes que discute o que é efêmero, o que é transitório e o que é eterno.

6. Isaías Sales (Ibã Huni Kuin), indígena do povo Huni Kuin Aldeia Chico Curumim, no Rio Jordão, Acre

Ibã  Huni Kuin é cacique, xamã e txana – mestre dos cantos. E é a partir dos versos das músicas e das mirações das cerimônias ayahuasqueiras que ele tira inspiração para suas telas. “O canto, assim como a ayahuasca, é o mediador entre todos os outros seres. Eles cantam para conhecer os outros animais e plantas. Não desenham histórias e sim cantos. É uma forma de representação e percepção muito distante do nosso cotidiano, com outra concepção de espaços”, relata o antropólogo Amilton Mattos, que fez um trabalho audiovisual com Ibã para uma exposição na Fondation Cartier, em Paris, em 2013. São poéticas e formas que nos falam de figuras míticas, que muitas vezes tomam forma de animais, e instigam reflexões espirituais sobre a floresta e sua força. Na aldeia localizada divisa do Brasil com o Peru, umas das 34 pertencentes ao povo Huni Kuin, Ibã fundou o Movimento de Artistas Huni Kuin, o Mahku, um coletivo que reúne 8 artistas da etnia – incluindo pintura, tecelagem e cerâmica. “É uma escola onde o Ibã passa os conhecimentos que aprendeu com o pai, Tuin Huni Kuin. É por meio dos cantos sagrados e das lendas que resgatamos o Hãtxa Kuin, língua dos Huni Kuin. É uma forma de resgatar também nossas origens e crenças que foram apagadas pelos evangélicos”, explica Kassia Borges (Rare Karaja Huni Kuin), esposa de Ibã e integrante do Mahku. A ideia do cacique é ambiciosa: o dinheiro obtido com a venda de obras de arte do grupo é usado para comprar mata virgem e protegê-la do desmatamento. Entre os membros, está também Edilene Sales ( Yaka Huni Kuin), filha do primeiro casamento do Ibã, que desenvolveu um trabalho independente e autoral com formas mais brutas e geométricas e, em 2017, participou de uma mostra no Itaú Cultural com curadoria de Ernesto Neto. “Eu não convivia com meu pai, mas comecei a pintar desde cedo. Sempre foi uma terapia para mim. Hoje também estudo os cantos e faço parte do Mahku”, explica. Para Véxoa: Nós sabemos, o grupo fez um mural com animais como anta, viado, porco, paca, tatu e cutia dentro de um círculo. É a interpretação do canto de cura Yame Awa kawanai.

7. Arissana Pataxó, indígena do povo Pataxó Reserva Pataxó Coroa Vermelha, Santa Cruz Cabrália, Bahia

Foto de Arissana Pataxó. Foto: Divulgação

“Cresci vendo meu pai escrever músicas, esculpir na madeira e desenhar. Foi com a minha mãe, que pintava em panos de pratos, que aprendi técnicas de mistura de tinta e criar camadas”, explica Arissana Pataxó – uma das poucas artistas indígenas que pinta de forma mais realista criando sombras, volumes e perspectiva, apesar de escolher cores fantásticas. “Desde pequena eu sempre observei muito as formas dos troncos e galhos das árvores e como a luz e a atmosfera mudava as cores”, explica como se fosse uma pintora impressionista. Arissana faz questão de usar o nome de seu povo para dar-lhes visibilidade e seus desenhos já aparecem em alguns livros didáticos sobre os Pataxós. Foi quando fazia ilustrações para um livro, aliás, que soube do Artes Plásticas da Escola de Belas Artes – UFBA, onde formou-se em 2009, apesar de já pintar desde os 18 anos. Foi na faculdade que ela enfrentou uma realidade que não imaginava: “Quando cheguei em Salvador percebi que as pessoas não conhecem os povos indígenas. É como se os índios fossem coisa do passado, algo não humano. É muito comum perguntarem se eu sou ‘índia de verdade’ ou falarem que eu ‘não pareço índia’ ou ‘ você não é índia, é educada e tem etiqueta’. Tem gente que acha que índio não pode ter celular!”, explica a artista que criou a escultura Mikay, que significa “pedra que corta”, para questionar estes estereótipos. Trata-se de facão de cerâmica – fazendo referência aos presentes doados pelos colonizadores aos índios – com a frase “o que é ser índio para você?”.  Única mulher indígena a vencer o prêmio Pipa, Arissana é professora de artes em Pataxó incentivando novas gerações a lutar não apenas por terras, saúde e respeito. Mas também por representação e representatividade.

8. Gustavo Caboco, indígena do povo Wapichana Aldeia Canauanim, Roraima

Obra de Gustavo Caboco. Foto: Divulgação

Gustavo nasceu em Curitiba, mas cresceu envolvido pela cultura Wapichana que conheceu primeiramente por palavras e histórias soltas que a mãe, Lucilene, expressava. Aos 12 anos, o artista faz o seu primeiro “retorno” para conhecer os parentes na aldeia Canauanim. Os caminhos e deslocamentos da família, que ele chama de “Pororoca Wapichana”, e o relatos são complexos: Lucilene foi “raptada” por uma missionária que passou pela aldeia e teve uma infância em trânsito, sendo adotada de casa em casa – onde muitas vezes eram repetidos processos coloniais. “O colonialismo pode acontecer por meio do afeto e isso está marcado de uma forma muito violenta na história dela”, descreve o artista que transformou as lágrimas num grande rio para percorrer com a mãe: com ela, ele cria textos, costuras e desenhos para compreender e expor as sementes plantadas pela família. Adotou o sobrenome “caboco” para reafirmar sua ancestralidade com delicadeza:  “Caboco é um território, uma estratégia de transito. E não uma etnia. Adotei esse nome e não simplesmente Wapichana por respeito ao próprio movimento indígena”, explica o artista que também participará da 34 Bienal de São Paulo e da mostra na Pinacoteca onde apresenta um questionamento sobre a fronteira do que é arte indígena e artesanato.

9. Daiara Tukano, indígena do povo Tukano, Terra Indígena Balaio Alto do Rio Negro, Amazonas

Ñokõá tero po’ero Hori [Enchente do colar de pedra, Constelação das plêiades], 2018, acrílica sobre tela. (Foto: Coleção da artista, cedida gentilmente à Vogue)

Uma das ativistas com mais influência, Daiara Tukano, mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília e pesquisadora sobre o direito à verdade e à memória dos povos indígenas, tem uma produção eclética mas sua força está na pesquisa dos desenhos tradicionais do objetos dos Tukano; e também das mirações causadas pelas medicinas, cantos e cerimônias. “Tenho feito um estudo de cor e luz em telas que estão relacionadas ao sagrado do nosso povo que é ayahuasqueiro”, explica a artista coordenadora da Rádio Yandê, primeira rádio indígena web do Brasil. Daiara foi uma das artistas indígenas a participar do festival 5ª edição do Circuito de Arte Urbana (Cura), realizado entre os dias 22 de setembro e 4 de outubro deste ano, em Belo Horizonte. Cobriu um dos edifícios da cidade com a pintura de uma mulher indígena segurando uma criança com nome sugestivo, Selva Mãe do Rio Menino. “Os rios são os avôs, todo avô já foi menino e todo rio tem mãe. E essa mãe é a mãe natureza”,explica a artista. Enquanto o Brasil inteiro está em chamas, a artista lembra que para que exista água, é necessária a floresta.