Antes considerados praticamente imunes aos efeitos do aquecimento dos oceanos, recifes na costa do Brasil sofreram perdas nos últimos anos.

Estudo divulgado pela Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral nesta terça-feira (05/10) mostra que aproximadamente 14% dos corais do mundo foram perdidos em quase uma década (2009/2018), pelo impacto, principalmente, do aquecimento dos oceanos. A perda no Brasil ficou abaixo da média global (em torno de 6%) neste período, mas a pesquisa, que envolveu mais de 300 cientistas, traz um grave alerta. “O evento de branqueamento de coral em 2019-2020, causado por uma onda de calor marinho maciça, causou branqueamento generalizado em todas as sub-regiões, com mortalidade estimada superior a 50% para algumas espécies”, afirma a rede de monitoramento.

O branqueamento é uma reação dos corais – animais marinhos que vivem em colônias – ao estresse térmico, que pode levar a morte. E a crise climática vem provocando o aquecimento dos oceanos, trazendo ameaça a esses ecossistemas que estão espalhados em mais de 100 países. Embora os recifes de coral cubram apenas 0,2% do fundo do oceano, eles abrigam pelo menos um quarto de todas as espécies marinhas. “Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais vulneráveis do planeta às pressões antrópicas, incluindo ameaças globais da mudança climática e acidificação dos oceanos, além de impactos da poluição terrestre, como entrada de nutrientes e sedimentos da agricultura, da poluição marinha e da pesca predatória”, aponta o relatório.

A Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral desenvolveu o estudo em dez regiões do mundo: além do Brasil, dividido em três sub-regiões; Austrália, onde estão as maiores barreiras de corais do mundo; Caribe, Mares do Sudeste Asiático, Pacífico, Pacífico Tropical, Mar Vermelho e Golfo de Aden, Sul da Ásia, Oeste do Oceano Índico (perto da costa da África) e Oriente Médio (no Golfo de Omã). No período estudado (2009/2018), as áreas mais impactadas foram a Austrália e partes do Pacífico, do sul da Ásia e do Oceano Índico.

Formações únicas

No capítulo sobre o Brasil, entretanto, o relatório destaca que “antes de 2016, a mortalidade de corais associada ao branqueamento nos recifes de coral brasileiros era baixa em comparação com outras regiões do mundo, sugerindo que esses recifes podem representar um refúgio térmico”. Isso mudou, principalmente a partir de 2019. “A mortalidade de corais associada ao evento 2019-2020 foi a maior já registrada no Brasil e marcou uma mudança na visão predominante de que os recifes marginais brasileiros eram menos vulneráveis aos padrões climáticos globais. Isso contrasta com a estabilidade relativa observada até então e destaca a importância de monitoramento contínuo e medidas de gestão local para mitigar os impactos”, alertam os pesquisadores.

A Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral destaca a importância dos ecossistemas brasileiros: “As formações de recifes de coral no Brasil são únicas tanto na forma quanto na composição de espécies, crescendo em formas de cogumelos – o chamado chapeirão que pode formar pináculos com 20 m de altura, como os chapeirões de Abrolhos – ou extensos topos de recife em áreas rasas, que se expandem lateralmente”. De acordo com o estudo, os corais brasileiros também são caracterizados pela baixa diversidade (23 espécies de coral duro e cinco espécies de hidrocoral) e pela quantidade (nove das 28) de espécies endêmicas, só encontradas na costa brasileira. Os corais do país também são os únicos do Atlântico Sul.

Recifes na Área de Proteção Marinha Costa dos Corais: ecossistema ameaçado pelo aquecimento dos oceanos (Foto: Edson Acioli / ICMBio)
Recifes na Área de Proteção Marinha Costa dos Corais: ecossistema ameaçado pelo aquecimento dos oceanos (Foto: Edson Acioli / ICMBio)

Os corais brasileiros estão espalhados por três mil quilômetros de costa, do Maranhão ao sul da Bahia. A rede de monitoramento dividiu sua análise em três regiões: a oceânica, que inclui o arquipélago de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas; os recifes costeiros da Região Nordeste, localizados em duas Áreas Marinhas Protegidas, com exclusão de pesca e uso sustentável, e a região de Porto Seguro, a chamada Costa do Descobrimento, que inclui o Parque Nacional Marinho de Abrolhos. Durante o período do estudo, os recifes costeiros do Nordeste foram os mais preservados: o número de corais ficou praticamente estável; nas outras duas regiões, houve pequenas perdas.

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O relatório, entretanto, alerta que o aumento de algas no período (cerca de 20%) nas regiões brasileiras já apontava para os efeitos do aquecimento do oceano – as algas dos recifes crescem quando os corais estão sob estresse. Historicamente, as ameaças aos corais brasileiros estão relacionadas à ação humana como aterros e poluição. O fenômeno climático El Niño, que aumenta a temperatura do Oceano Atlântico, vem impactando cada vez mais nos corais: o aquecimento global torna El Niño mais forte e mais prolongado.

O estudo da Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral destaca ainda que algumas das “principais áreas de recifes fazem parte de áreas marinhas protegidas (AMPs), como o Atol de Rocas e Fernando de Noronha, Abrolhos e a AMP da Costa dos Corais, embora a proteção integral ainda seja muito baixa e atualmente ameaçada por pressões crescentes”. O relatório não lista essas pressões mas a ANP está leiloando nesta quinta-feira (07/10) blocos para exploração de petróleo e gás próximos ao arquipélago de Fernando de Noronha e ao Atol das Rocas, que o estudo faz questão de lembrar ser o único atol (ilha oceânica toda formada de coral) do Oceano Atlântico.

Corais resistentes

Na divulgação do relatório, os coordenadores do estudo alertaram para a ameaça aos corais. “Esse é o mais detalhado estudo sobre corais já feito no mundo. Uma mensagem clara é que a mudança climática é a maior ameaça aos recifes do mundo, e todos devemos fazer a nossa parte reduzindo urgentemente as emissões globais de gases de efeito estufa e mitigando as pressões locais”, afirmou Paul Hardisty, CEO do Instituto Australiano de Ciência Marinha. “Há tendências claramente perturbadoras em relação à perda de corais e podemos esperar que continuem à medida que o aquecimento persiste”, acrescentou.

Diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Inger Anderson disse que a perda dos corais é mais um sinal de que a humanidade está ficando sem tempo para salvar o planeta. “Desde 2009, perdemos mais corais, em todo o mundo, do que todos os corais vivos na Austrália. O tempo está se esgotando: podemos reverter as perdas, mas temos que agir agora. Na próxima conferência sobre o clima, em Glasgow, e na conferência sobre biodiversidade em Kunming (China), os governantes, tomadores de decisão, têm a oportunidade de mostrar liderança e salvar nossos recifes, mas apenas se estiverem dispostos a dar passos ousados. Não podemos deixar que as gerações futuras herdem um mundo sem coral”, afirmou a diretora do Pnuma.

O relatório, contudo, também oferece sinais de esperança. Os pesquisadores descobriram que, apesar do estresse térmico sob o qual os recifes estavam, muitos permaneceram resistentes e mostraram potencial para se recuperar com as condições certas, especialmente se medidas forem tomadas imediatamente para interromper o aquecimento global. “Alguns recifes de corais têm mostrado uma notável capacidade de recuperação, o que oferece esperança para a recuperação futura de recifes degradados”, afirmou Paul Hardisty.

Fonte: Projeto Colabora