• Depois de intensa caça para fins comerciais nas décadas de 1930 a 50, cientistas e comunitários apontam indícios de que a população de peixes-boi está crescendo na Amazônia.
  • Estudo feito na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no Amazonas, mostra alta ocupação do peixe-boi perto de comunidades humanas. Dentro da reserva, comunitários e animais vivem em harmonia.
  • As ameaças, porém, continuam na forma de caça ilícita e captura acidental. Filhotes resgatados são levados a centros de reabilitação, que estão carentes de verba e estrutura, além de lotados.
  • Monitoramento de animais devolvidos à natureza mostra eficiência do programa de introdução: fêmea devolvida ao habitat natural foi encontrada grávida.

Diogo acordava às 3 horas da manhã, passava na casa de um comunitário conhecedor do peixe-boi, e os dois começavam o trabalho entre os carapanãs e o alvorecer. Imóveis na canoa de madeira, debaixo do sol escaldante típico da estação seca, procuravam indícios da presença do maior mamífero de água doce do Brasil, capaz de alcançar 3 metros de comprimento e 500 quilos. O animal é tão grande e, ainda assim, demanda esforço para ver?

Tão fugidio ele é que foi chamado de “animal fantasma” por alguns. Pescadores diziam que não podiam deixar nem cinza de cigarro cair na água porque o peixe-boi rapidamente desaparecia, mesclando-se às cores turvas das águas amazônicas. Fala-se também que o peixe-boi aprendeu a deixar só o nariz do lado de fora das águas na hora de respirar, escondendo-se ao máximo do bicho humano, predador que o caçou de forma descontrolada nas décadas de 1930 a 50 com o objetivo de exportar couro para aplicações industriais, como mangueiras, correias de transmissão, polias e peças de teares.

Estudo liderado por Diogo de Souza, biólogo e vice-presidente da Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa), avaliou diversas metodologias para estimar a ocupação do peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) na Amazônia Central. Foram 44 dias de observação em 33 lagos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, criada em 2003, e localizada a pouco mais de 200 quilômetros de Manaus, no Amazonas.

O peixe-boi-da-amazônia é exclusivo de água doce. Endêmico, tem distribuição restrita à Bacia do Amazonas, e é considerado vulnerável de acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

Animal de reprodução lenta, a gestação dura 12 meses com apenas um filhote. Durante os dois anos seguintes de amamentação, a mãe conduz o protegido por uma escola de sobrevivência, que vai desde o aprendizado sobre as águas amazônicas e rotas migratórias até o entendimento de que os humanos são predadores.

No Brasil, a proibição da caça foi decretada em 1967. Apesar de a exploração comercial ter levado à redução drástica da população de peixes-boi amazônicos no Rio Purus, o estudo mostra que são altas as taxas de ocupação do mamífero na região. Mesmo não existindo uma estimativa da população – não se consegue fazer a contagem do peixe-boi como se faz, por exemplo, a contagem do boto –, indícios como fezes, plantas que serviram de alimento, e também a visualização dos animais em si sugerem a recuperação da população de peixes-boi na região, confirmada também por integrantes das comunidades locais.

Comunitários monitoram peixes-bois no Rio Purus. Foto: Diogo de Souza.

“A criação da reserva parece ter tido efeito positivo. É capaz que ali, naquela área de estudo, as populações estejam se recuperando. A gente fez entrevistas com comunitários e pescadores e eles dizem ver mais vestígios de peixe-boi”, explica Diogo.

Ainda que o estudo não possa afirmar que esse mesmo padrão se repita em outras áreas ou reservas da Bacia Amazônica, estudo genético realizado anteriormente em toda a Amazônia brasileira já havia encontrado evidencias da expansão demográfica do mamífero.

“Com a proteção e a proibição de comércio, a espécie teve um fôlego e a expectativa é de que esteja aumentando. Agora, o quanto é essa tendência de aumento, a gente não tem esse valor”, diz Vera da Silva, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e também autora dos dois estudos mencionados.

Diogo conta que, durante a pesquisa de campo, pôde ver grupos de até 12 indivíduos na natureza. “Eu cheguei a ver momentos de cópula, de macho tentando copular com fêmeas em grupos. E a gente, naquele silêncio, chegando bem perto para ver… sem poder gritar de alegria.”

Surpreendendo os pesquisadores, a pesquisa na Piagaçu-Purus revelou que há alta ocupação do peixe-boi perto das comunidades. O melhor habitat para o mamífero também é a melhor região para o estabelecimento dos humanos e, dentro da reserva, ambos coabitam em harmonia. Terras como a várzea, fertilizada pelos sedimentos originados dos Andes, áreas com nascentes ricas, e também a alta conectividade a outros corpos d’água favorecem as duas espécies.

“Os comunitários são conhecedores da floresta, são eles que também protegem esses animais, participam ativamente na reserva, no monitoramento dos lagos, na proteção do pirarucu e dos outros peixes”, afirma Diogo. “Esse conhecimento ecológico local é de extrema importância para o peixe-boi-da-amazônia e serve de informação importante quando a gente quiser colaborar com planos de gestão da reserva e tomada de decisões”.

Pesquisador do Ampa amamenta peixe-boi em centro de reabilitação. Foto: Jonne Roriz/Ampa.

Soltura histórica

Quando chegou, Gigi se recusava a comer. Ela é uma sobrevivente: superou a infecção por salmonela e a diarreia crônica. Com a saúde já estável, foi colocada num tanque junto com um colega comilão e amigável. Mas a motivação não foi forte o suficiente. Compartilhando por dez dias as mesmas águas, os dois órfãos não fizeram amizade. Gigi continuou recusando a mamadeira, até que foi enfim separada de seu companheiro de tanque. Ao que tudo, está reagindo bem.

“Os animais chegam filhotes, normalmente são resgatados pelos órgãos ambientais e pelo batalhão da polícia ambiental através de denúncias. São trazidos para o Inpa e aqui a gente começa o processo de reabilitação”, conta Vera.

Antes de chegar ao Inpa, Gigi foi cuidada por moradores da cidade de Almeirim, no Pará. Hoje ela compartilha os tanques do Inpa com outros 61 peixes-boi em processo de recuperação, visando a reintrodução na natureza. Pelo menos 12 deles são bem jovens e ainda tomam mamadeiras a cada 5 horas. “Deveremos transferir em breve um grupo de animais para o semicativeiro, não só para reduzir o número de animais nos tanques do Inpa, mas também visando futuras reintroduções”, conta Vera.

De 20 a 23 de julho deste ano ocorreu uma soltura histórica, com a reintrodução de 13 peixes-boi à natureza na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus. Cinco dos animais receberam um cinto transmissor para serem monitorados. “Normalmente levávamos de 8 a 10 animais até pela dificuldade de transporte. São 24 horas de viagem num barco regional com tanques de fibra de vidro no convés do barco. A gente põe água, os animais dentro, e são 24 horas de monitoramento”, explica Vera, que liderou a expedição executada pela Ampa, com parceria do Inpa.

Soltura de peixe-boi na reserva de Piagaçu-Purus em julho de 2021. Foto: Ampa/divulgação.

É bastante custoso cuidar de filhotes órfãos e pode levar de três a seis anos até os animais ficarem aptos à reintegração na natureza – isso quando as condições logísticas e financeiras para a reintrodução ocorrem. Segundo Vera, apenas a viagem com duração de cinco dias para ir, libertar os animais e voltar custou R$ 30 mil, sem contar despesas com logística para carregar os animais dos tanques ao barco e assim por diante.

Além do monitoramento em tempo integral, são diversos os cuidados para a reintrodução. “Temos que fazer uma série de exames médicos. Nós temos que garantir que não estamos levando do cativeiro nenhuma doença para as populações naturais”, explica Vera.

Por falta de verba e estrutura, a maioria dos centros de reabilitação não está recebendo indivíduos. Segundo Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá, existem atualmente três centros de reabilitação oficiais de peixe-boi amazônico: o do Inpa, o do Centro de Pesquisa e Preservação de Mamíferos Aquáticos em Balbina, Amazonas, e o ZooUnama, em Santarém, no Pará – todos com a capacidade máxima completa, o que significa 50 indivíduos ou mais, como é o caso do Inpa.

“Manter peixes-boi em cativeiro é oneroso em termos financeiros, logísticos e de pessoal”, diz Miriam. “A crise está na situação atual porque muitos filhotes continuam sendo resgatados por ano, seja porque encalharam, se emalharam ou foram arpoados para atrair a mãe”, explica.

Apesar da proibição, ainda hoje o peixe-boi é caçado para subsistência e comércio ilegal nos mercados populares da Amazônia. Grande parte dos filhotes resgatados e levados a centros de reabilitação são vítimas acidentais das malhadeiras.

Colocadas perto das margens dos rios de água branca, que inundam a várzea, as malhadeiras cobrem áreas grandes onde transitam os animais. Quando se emalham, os peixe-bois adultos conseguem geralmente romper a rede, mas os filhotes não têm força suficiente e podem ficar presos. Sem conseguir subir à superfície para respirar, eles podem morrer ou tornam-se órfãos. Por não se distanciar do filhote, a mãe vira presa fácil para caçadores.

A pesquisadora Miriam Marmontel, do Instituto Mamirauá, com fêmea de peixe-boi de um mês de idade, resgatada no Acre, em 2014. Foto: Danielle S. Lima.

Grandes dificuldades são enfrentadas pelos centros de reabilitação, mas o monitoramento dos animais após a soltura comprova eficiência. “Nós conseguimos recapturar quatro indivíduos 18 meses depois de soltos e um deles, uma fêmea estava grávida”, conta Vera.

“A reprodução na natureza de um animal reintroduzido mostra o sucesso da reintrodução. Para nós, confirma que os métodos que estamos usando – o período de readaptação nesse lago seminatural, no semicativeiro, as faixas etárias, como a gente tem trabalhado – estão funcionando”, conclui Vera.

Fonte: Mongabay