Um dos filmes mais encantadores da história do cinema. Você se tornará uma pessoa mais feliz depois de vê-lo

Uma das histórias mais humanistas do cinema, “Aconteceu Naquela Noite” é o típico filme que reúne todas as condições para ser vulgar e é sofisticado; que tem tudo para ser comum, mas é único; que parece só um apanhado dos tantos clichês que a sociedade moderna alimentava desde o surgimento do capitalismo, século e meio antes, mas que se recusa a repetir velhas fórmulas, valendo-se de uma narrativa cheia de altos e baixos, e torna-se eterno.

É uma verdade inescapável que nem se pode comparar o mundo de 1934, quando o filme foi lançado, ao da nossa questionável contemporaneidade. Isso posto, conclui-se que dificilmente esse trabalho de Frank Capra (1897-1991), um dos maiores diretores de todos os tempos, fosse contemplado com cinco Oscars, nas principais categorias — além de Melhor Filme e Melhor Diretor, as mais importantes dentre as mais importantes, “Aconteceu Naquela Noite” foi agraciado com os prêmios de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator e Melhor Atriz. Era o filme certo no tempo mais adequado, portanto.

O mote central, como já se insinuou é simples, quase pueril, e ter conseguido transformar algo aparentemente tão pouco interessante numa obra de arte é o grande trunfo de Capra. Ellen Andrews, vivida por Claudette Colbert (1903-1996), é uma riquinha cheia de caprichos que não aceita a interferência do pai, Alexander Andrews, de Walter Connolly (1887-1940), um poderoso industrial, em sua vida, muito menos no que diz respeito a romances. Para afrontá-lo, decide se casar com King Westley, o aviador almofadinha interpretado por Jameson Thomas (1888-1939), o que logo se prova o maior erro de sua vida. Ellen, Ellie para os íntimos, e Westley, um tipo conquistador nada afeito a casamento, não têm nada em comum, o que a mocinha demora a perceber, uma vez que nem conseguem se encontrar. Tentando definir sua situação, mas num campo mais pragmático, o da sobrevivência, Peter Warne cruza seu caminho. Desempregado, o jornalista encarnado por Clark Gable (1901-1960) se oferece para ajudar Ellie a fisgar o marido de vez, desde que tenha autorização para levar a baixaria às páginas dos jornais, como freelancer, e, assim, tirar a barriga da miséria. No entanto, o Warne reconsidera suas intenções, até porque começa a ficar cada vez mais próximo de Ellie, que por seu turno reconhece nesse tipo meio torto a figura do homem que quer para dividir a vida com ela.

Malgrado o roteiro de Robert Riskin (1897-1955) ser adaptado de um conto do jornalista investigativo Samuel Hopkins Adams (1871-1958), cheio de referências a clássicos do teatro universal, “Aconteceu Naquela Noite” mantém o viço, justamente graças a Colbert e Gable, uma das parcerias mais eficazes já vistas pela indústria. Riskin soube aproveitar a exuberância dos dois atores em cena a fim de evocar o movimento de repulsa e receptividade de Warne e Ellie, que passa a pontuar a trama já a partir do começo, expediente empregado por ninguém menos que William Shakespeare (1564-1616) com Catarina e Petruchio no sucesso arrebatador de “A Megera Domada” (1594), repetido cinco anos depois, em 1599, sob a forma de Beatrice e Benedick, em “Muito Barulho por Nada” (1599). Constatando que esse morde-e-assopra dava mesmo pano para manga, Hollywood galvaniza o molde, de que volta a lançar mão em “…E o Vento Levou” (1939), com Vivien Leigh (1913-1967) e novamente Gable, mais um enredo de uma herdeira mal-acostumada que se derrete por um homem que não lhe dá a mínima, até que uma sucessão de tragédias se abate sobre sua família, o que a faz se preocupar com coisas mais urgentes.

Uma das primeiras produções a abordar de maneira direta não um, mas vários temas tabus — erotismo, machismo, misoginia, emancipação feminina, a influência das reviravoltas macroeconômicas sobre a vida do homem comum —, o filme de Capra servira como um alento ao americano médio, perdido diante das convulsões sociais advindas da quebra da Bolsa de Nova York, em 24 de outubro de 1929, ao passo que se convertia num dos ícones de um mundo como não se conhece mais, revestido da aura de terror que voltara a tomar da humanidade cinco anos depois, com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A inocência dos diálogos e das situações, tudo calculado, mas conduzido de maneira tão orgânica que mesmo quem nunca ouviu falar da história é capaz de imaginar seus próximos desdobramentos, é um achado. A sequência em que Warne e Ellie se veem forçados a saltar do carro e pedir uma carona, coisa que a personagem de Colbert jamais imaginara fazer na vida e para a qual não pode prescindir do método do jornalista, é simplesmente imperdível. Naquele instante, dois universos até então paralelos começam a se fundir.

Pleno de alusões à cultura pop da época — e de piadas metalinguísticas, como quando Warne se faz acreditar um executivo meio escuso da Warner Brothers para impressionar um desafeto —, “Aconteceu Naquela Noite” é um filme visceralmente americano, que se concentra no que os Estados Unidos ainda têm de melhor, a capacidade de extrair riso da dor, de se autossatirizar, e, por essa razão, consegue ser universal. Deixando por trás de sua suposta frivolidade um fumo de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), de O. Henry (1862-1910), o trabalho de Frank Capra vale cada um de seus cinco Oscars, o dele, o de Riskin, o de Gable, o de Colbert e o seu próprio, como melhor filme daquele ano. A mãe de todas as comédias românticas teve uma prole numerosa, mas poucas são as produções do gênero que espelham a grandeza de “Aconteceu Naquela Noite”. Mesmo que os tempos sejam outros.

Fonte: Revista Bula